As duas últimas semanas foram marcadas por reviravoltas nas eleições dos EUA. Depois de um debate onde Biden deixou clara sua fragilidade, Trump assumiu a liderança da corrida, foi alvo de uma tentativa de assassinato e pavimentou seu caminho para a vitória. Não fosse a sagacidade do partido democrata e um Biden, não se sabe se convencido ou obrigado, a ceder o posto para sua vice, Kamala Harris, que embolou a disputa, e penso que agora ela seja a favorita. No momento. A eleição é só em novembro e… nem precisa dizer, tudo pode acontecer.
Nem parece que, antes, em outubro, teremos nossas eleições municipais, meio esquecidas no momento em que os partidos estão promovendo seus acertos e lançando as chapas para a disputa… nos EUA (aqui também)!
A impressão é que o governo e seus aliados se sairão melhor que em 2020, talvez bem melhor, mas é cedo pra saber. O bolsonarismo está totalmente em crise, com tendência de agravamento, com muita gente pulando fora do barco e outros jogando em duas canoas. Alguns fiéis permanecem, mas parecem esperar que os extremistas se lasquem e deixem para eles os votos.
E antes de ambas, no próximo domingo, teremos as eleições na Venezuela, que prometem pegar fogo. A vitória esperada de Maduro será apenas mais uma das muitas batalhas que o país enfrenta e enfrentará. O resultado tem tudo para ser contestado, mas penso que, se algumas escaramuças ocorrerem, espero que isoladas e de menor consequência, o país volte rapidamente à sua normalidade, que significa sempre estado de atenção e tensão, mas segue.
“Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano.” – Dilma Roussef, 2016.
Na tardinha dessa sexta o Presidente Lula compartilhou a foto acima, explicando que tratava-se da visita de Dilma ao Palácio do Planalto, de onde foi golpeada e destituída do cargo em 2016 e nunca mais retornara.
É bom destacar a foto, o fato, a gentileza e a história . E a elegância delicada de dois anciões que dedicaram toda a vida ao Brasil.
E que continuam a fazê-lo, num certo sentido como aquele marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar. Mas que conhece o caminho, sabe dos atalhos e onde quer chegar.
Em 2013 o nosso Brasil entrou no roteiro do caos, da desorganização, da aventura, com resultados catastróficos e que atrasaram nosso desenvolvimento por uma década.
Era comum na minha juventude ouvir isso, que os anos 80,90 etc, eram décadas perdidas em crescimento e melhor vida e dignidade a todos.
Depois foram os anos da gente de uma geração descobrir que não precisava ser assim, um modo muito melhor, inclusivo, soberano, acolhedor e por isso eficaz, existia e podia ser implantado.
Como de fato foi, até que os urubus que nos sobrevoam descessem para o banquete .
Mas não é isso agora, porque Dilma passeia novamente nos corredores do Palácio e sorridente, escorada no seu parceiro e promotor. E quando isso está acontecendo no nosso Brasil, eu sei e digo, é porque muita coisa está no seu lugar ou caminhando para estar.
O blá-blá-blá na véspera da eleição na Venezuela envolvendo Lula, Maduro, Fernández e até a ministra do TSE Cármen Lúcia, não foi bom, fragilizando uma eleição que por si só já seria pra lá de complicada.
A oposição na Venezuela parece que vai perder, e, apesar das pesquisas para todos os gostos e resultados que saíram quase diariamente, a eleição vai ser apertada, segundo afirma Brian Mier, correspondente da Telesur que está em Caracas acompanhando a véspera do pleito que escolherá o próximo presidente da Venezuela.
Mas o que nos interessa observar é que, ou o presidente Lula dispõe de alguma informação reservada e procura se preservar ou mesmo preservar a eleição na Venezuela para que funcione da maneira mais transparente e eficaz possível, ou ele decidiu se colocar acima da história conturbada do país vizinho, numa crítica pesada logo na véspera e por motivos não muito claros.
Que, a meu ver, poderiam ficar para depois da eleição, a menos que a gravidade ainda desconhecida demande uma resposta ou posição antecipada.
Maduro falou em banho de sangue na hipótese de vitória da oposição, mas se referiu à violência que seria desencadeada contra ele e seu grupo. Lula pareceu entender que Maduro ameaçava de alguma forma, o que não foi o que entendi vendo a declaração completa. É bom lembrar que a retórica de guerra em caso de derrota, seja em que contexto for, não é exclusiva de Maduro. Trump a repete diariamente em seus comícios, Bolsonaro o fez em várias ocasiões, e todos se deixam levar por retórica inflamada que não se confirma depois, felizmente.
Não bastasse Lula, o ex-presidente Fernández da Argentina concordou com as falas do nosso presidente e foi desconvidado a comparecer como observador. E Maduro, retrucando a fala de Lula, afirmou que a eleição no seu país é mais segura que nos EUA, na Colômbia e no Brasil, porque lá as urnas são auditadas. A fala irritou Cármen Lúcia, que cancelou a ida de observadores do TSE no dia da eleição, que acontece no próximo dia 28.
Ou seja, um festival de tropeços, aparentemente desnecessário e intempestivo, que acaba por isolar a Venezuela ainda mais nesse momento tão importante e decisivo para os próximos anos no país.
Se foi tudo retórica, as falas de todos os personagens e suas atitudes estão equivocadas.
Se alguma coisa acontece sem o nosso conhecimento, também não é bom e deixa em suspenso o processo eleitoral, que por si só é um desafio dos maiores para qualquer país no mundo.
Torcemos pela paz, por eleições livres e que vença Maduro, ainda o nome para conduzir a Venezuela nos próximos anos, apesar de todos os pesares e enormes dificuldades, inclusive pessoais.
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Na reunião de ontem e em sequência da exposição da proposta do Brasil, de taxar bilionários no mundo e usar os recursos no combate a fome, houve uma aceitação geral da ideia, que agora depende de se viabilizar para sua implantação.
E aí, me parece, que morrem todas as boas iniciativas : quem e como pagar?
A proposta do Brasil não vem do vazio, apresenta o problema e sua solução: taxar as grandes fortunas em 2% e arrecadar U$ 200 bilhões anualmente .
E a Alemanha já disse que não aceita implementar a taxa proposta .
Vamos ver como segue a reunião do G20 no Rio de Janeiro, com a presença dos ministros das finanças dos países do grupo, se alguma outra proposta para financiar o combate a fome vai surgir ou se ficamos na concordância de combater o mal sem no entanto promover os meios.
O que não seria exatamente uma surpresa, lembrando de tantos compromissos com preservação do meio ambiente acordado nesse fórum e em outros, todos solenemente ignorados depois. Devemos ter ao menos uma tributação progressiva e mais rigor contra evasão fiscal e maior cooperação contra lavagem internacional de dinheiro.
A presidência de turno é do Brasil, nossa experiência e sucesso no combate a fome é conhecido e reconhecido mundialmente, o que permite alimentar uma dose de esperança de que alguma solução intermediária possa surgir.
Ficamos na louvação da proposta e encaminhamento para a reunião do G20 de novembro, também aqui no Brasil. Só que com a presença dos presidentes, onde, talvez, o combate à fome no mundo se torne não somente a marca nacional do nosso Lula, mas uma conquista mundial.
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A mídia e seu patrão, o Mercado, não satisfeitos apenas com os maiores e mais lucrativos juros do mundo, pretendem prolongar o pedágio que o governo Lula aguentou até agora e até o fim de 2024, trabalhando dia e noite para manter o privilégio de ganhar sem produzir indefinidamente.
Se no debate orçamentário, tão em moda, onipresente e seletivo na escolha de alvos, fosse sério – o pagamento de bilhões no maior programa mundial de concentração de renda, que dura 30 anos desde o início do Plano Real e que não foi inteiramente interrompido nem nos governos Lula 1 e 2, um pouco no governo Dilma e depois sofreu uma queda artificial com Guedes mirando no dólar alto para vender nossas empresas ao estrangeiro o mais barato possível – ocorresse, a todos os interessados seriam as taxas de juros os verdadeiros vilões de qualquer contabilidade ou análise sobre déficit fiscal no nosso Brasil.
Como não se trata de esclarecer e buscar soluções, mas sempre de esconder, camuflar e manter privilégios, o debate não acontece enquanto a intenção está sempre focada na ameaça ao modelo de acumulação desenfreada no mercado financeiro e nunca na produção.
A escolha do novo presidente do Banco Central, por todos os motivos, é uma decisão chave nesse processo. Por isso, o nervosismo total e as táticas de sabotagem do atual presidente bolsonarista no cargo, lutando com todas as forças e com todos seus interessados, sobretudo o braço financeiro na mídia, que nem é mais comprado ou coisa parecida, mas uma coisa só, na relação de empregado e patrão, de quem manda e quem obedece.
Olhando o retrospecto das nomeações do Presidente Lula, é fácil observar que ele não tem tido nenhuma pressa em nomear seus indicados a cargos relevantes. Temos os casos do STF, com Zanin e depois Dino, e o PGR, todos nomeados quando a conveniência do governo imperou, jamais os interesses em volta.
É mais certo pensar em uma repetição do padrão no caso da escolha do novo presidente do BC do que apontar um nome meses antes da nomeação, oferecendo aos interesses um prazo para atacar o escolhido sem que ele disponha dos poderes do cargo para sua defesa.
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Os 30 anos do Plano Real serviram para todos relembrarem os fundamentos do combate à hiperinflação nos países latino-americanos e sua dependência do dólar, numa época sem pré-sal e preços de importação astronômicos e sem contrapartida de exportação, sobretudo dos derivados do petróleo.
Várias tentativas fracassadas até conseguiram amarrar a moeda brasileira ao dólar, que era um dos fundamentos do plano, entre o ajuste fiscal, juros exorbitantes, fim das nossas indústrias e um futuro sem aumento de preços e sem crescimento econômico. FHC sabia e dizia governar para um terço da população, o resto que explodisse em fome e miséria. O que de fato ocorreu.
A reeleição do presidente Lula mudou, mais uma vez, esse cenário desolador. A sorte do Plano Real foi o primeiro governo Lula, que tirou o Brasil do pântano dos juros altos, do crescimento medíocre e da mentalidade neoliberal. Essa mentalidade tenta continuar se impondo, mesmo após mais fracassos da ponte para o futuro do golpe parlamentar e do desgoverno fascista. Um misto de preguiça e incompetência assola o país desde sempre, interrompidos esses períodos de mediocridade pela dinâmica do presidente petista e seu esforço por distribuição de renda e melhoria geral de vida das pessoas.
Mas o horizonte para o dólar não é mais promissor, de reserva de valor incontestável no mundo e única opção referencial entre trocas comerciais das nações. Cada vez mais, aqui e ali, a disposição para enfrentar esse privilégio cresce, desafiando as décadas do domínio da moeda dos EUA no mundo. Vou dispensar as diversas iniciativas em andamento, dos BRICs, da Arábia Saudita abandonando o petrodólar, até a dívida interna americana e seu desespero de refinanciamento de uma dívida impagável a essa altura, que concorrem para o encerramento dessa moeda única e onipresente.
O Brasil enfrenta, nas últimas semanas, um ataque contra sua moeda, apesar dos juros altíssimos, que têm sido a ferramenta para conter esse tipo de especulação. Mas pode ser que o dólar esteja mesmo descontrolado, espremido por dúvidas na condução futura do país norte-americano e eleições próximas. Uma maneira de contermos essa especulação sem sentido, uma vez que todos os quesitos econômicos estão em ordem internamente, seria fixar o valor do câmbio e amenizar essas flutuações descabidas. E nisso, até a vizinha Argentina quebrada consegue fazer.
Acho que está na hora de aproveitar a comemoração dos 30 anos do Plano Real e acabarmos de vez com o tripé econômico de inspiração da época do Plano Real : câmbio flutuante, meta de inflação e objetivo fiscal , que inventaram. Se serviu para ancorar as expectativas, como gostam de afirmar, agora faz o oposto e azucrina nossa economia e estressa, sem nenhuma razão, as nossas empresas importadoras através de variações bruscas do câmbio, além de provocar inflação de importados de preços indexados em dólar.
Chega disso, é hora de câmbio fixo. Melhor, administrado a nosso favor e não contra.
Meta de inflação factível e fiscal administrada, permanecem, e tratamos disso depois.
Quanto a imagem que ilustra o Post, com as diferenças entre câmbio oficial e paralelo da Argentina, não é o exemplo adequado a ser seguido. Mas mostra o quanto o problema aqui no Brasil é superestimado.
Nesta terça-feira, a confirmação da candidatura de Kamala Harris à presidência dos EUA está praticamente garantida. O número de delegados comprometidos com sua indicação supera o mínimo necessário e agora basta formalizar na convenção, que acontece nos próximos dias.
A agitação do fim de semana com o anúncio da desistência de Biden, que segue isolado acometido de COVID, ofuscou a tentativa de assassinato de Trump dias antes, nesse mundo de imagens instantâneas e disseminadas em que vivemos.
Eleições parecem ser cada vez mais sobre indivíduos, cada vez mais sobre personalidades. Quem presta mais atenção pode ouvir muito das ideias dos candidatos e suas propostas, que nem sempre se concretizam, é verdade. Mas o destaque das pesquisas e até opiniões dos chamados analistas e imprensa em geral recai muito sobre quem são os candidatos, muito mais do que pensam e o que representam.
No caso de Trump, não temos muito a descobrir, muito menos o eleitor dos EUA, que sabe tratar-se de um fanfarrão inescrupuloso, aproveitador e agora condenado na justiça por fraude. Além de péssimo ex-presidente, antidemocrata e admirador de fascistas mundo afora, sendo sua única qualidade o fato de não apoiar guerras, o que sua adversária vai continuar apoiando com entusiasmo.
E aqui praticamente esgotamos o que sabemos de Kamala, além de ser uma mulher relativamente associada a pautas progressistas de costumes.
Seu antigo cargo de procuradora é conhecido e de nada serve para quem pretende ser presidente de um país. Basta imaginarmos Deltan Dallagnol disputando o cargo aqui no Brasil com chances de vitória para sabermos o significado da comparação.
Que nem sabemos se é injusta, exatamente porque a discrição e o isolamento de Kamala como vice de Biden, onipresente, impedem maiores considerações sobre a personagem.
Mas ela é do grupo do Obama, do Biden, do partido democrata e talvez isso seja o suficiente para enquadrarmos a candidata no histórico comum e medíocre da política dos norte-americanos.
Sua maior qualidade, até aqui, vai ser a dura campanha que sua experiência de promotora anuncia contra Trump. Ela o chama de abusador sexual, escroque e criminoso, e a campanha mal começou. Diz que sua especialidade em lidar como promotora com esse tipo de criminoso vai lhe permitir enfrentar Trump na disputa. Convenhamos que é muito pouco, embora seja para todos o que mais interessa: derrotar Trump.
Porque o que sair dali vai ser o mesmo de sempre, com uma pitada de modernidade que Biden nunca pôde acrescentar.
Muito pouco, mas é o que temos.
Observo um entusiasmo maior entre as mulheres brasileiras com o anúncio, do que os homens. Vamos ver nos EUA como a coisa avança.
Desde o arcabouço, tenho percebido uma certa pernada do governo na sua relação com o mercado. O que o governo oferece não é nem de longe o desejo explícito dos abutres.
O arcabouço mesmo, totalmente a contragosto do tal mercado financeiro, nunca foi digerido, porque a leitura é que ele aponta sempre sua bússola para o crescimento da economia, onde terá pleno funcionamento.
Mas as circunstâncias atuais, no que diz respeito às dúvidas fiscais do mundo, sobretudo nos EUA, com o agravante de eleição indefinida – e agora uma provável troca do candidato democrata, embolando a disputa novamente – ecoam aqui no Brasil nesse movimento especulativo, quando estamos vulneráveis e sem um Banco Central atuando para preservar nossa moeda.
O contexto é esse, que passa a exigir uma resposta, nem que seja parcial, para que uma posição proativa do governo substitua a inoperância do Banco Central, que só assiste ao vai e vem do câmbio. O que começa a incomodar, certamente.
Então, a resposta é contingenciar R$15 bilhões no orçamento de 2024 e R$25,9 bilhões no orçamento de 2025, que segundo o ministro Haddad, serão suficientes para garantir o cumprimento das regras fiscais do arcabouço.
Se puxarmos pela memória, estamos nessa conversa há semanas, o que me parece uma protelação sobre o assunto, sabendo que o tempo e a economia, cada vez mais dinâmica, jogam a favor do cumprimento das metas e do orçamento inicialmente proposto.
Mas como o discurso do boicote e ataques especulativos ganham força, e como não temos a defesa institucional eficaz do BC, o jeito é fazer o jogo, mesmo tendo que ouvir que, na verdade, eles – o mercado financeiro – queriam mesmo era um corte de R$70 bilhões e para já.
Seguimos, porque tudo ficou para agosto e o governo aceitou discutir o contingenciamento, mas incluindo as novas regras de desoneração que deverão ser aprovadas também em agosto, no mesmo mês que será apresentado o orçamento de 2025. Uma mão lava a outra, e ninguém impõe nada que não possa ser bem aproveitado. E o momento exige uma resposta, que a tenham, mas tudo dentro dos limites que mantenham o investimento e as obras programadas, e que os favorecidos por decisões controversas e fora da hora sejam chamados também para a mesa de acertos.
Após o bem-sucedido e vitorioso primeiro mandato, quando sua aprovação estacionava próximo de 70%, a presidenta Dilma enfrentou em seguida dificuldades para sua reeleição. Reeleita nas condições políticas e econômicas de então, seu apoio desandou, e um golpe parlamentar capitaneado por Michel Temer conseguiu vingar.
Sim, entre um mandato e outro, tivemos as passeatas da guerra híbrida, com os frustrados de sempre, os oportunistas de então, além de quem não fazia ideia do que estava acontecendo, solapando e preparando o golpe que viria em seguida.
Houve um momento nos dois primeiros mandatos do Lula em que o canto da sereia golpista rondou o vice da época, José Alencar. Muito diferente da cobra peçonhenta chamada Michel, que vivia sorrateiro no Planalto, Alencar afastou as crises fabricadas e cumpriu o mandato ao lado do Lula até o seu final, para o bem de todos.
Relembro os fatos porque, entre seu primeiro e segundo mandatos, Dilma enfrentou o dilema do conflito distributivo instalado na economia brasileira, até então conduzida sem ter sido severamente afetada pela quebra geral dos mercados ocasionada em 2008 nos EUA. No Brasil, conseguimos, com grande aporte do Estado, subsídios e desonerações, manter a economia rodando, mas a altos custos fiscais e fragilizando o orçamento até que chegou o momento de ajustar.
E aí o conflito distributivo se instala, porque quem vai pagar o ajuste?
Não tivemos nem tempo de saber a resposta de Dilma na época. Com as dúvidas instaladas e com as jornadas coloridas a mil, o Congresso, somado à vice-presidência, se encarregou de responder, empurrando o ajuste para o lombo dos de sempre: os trabalhadores, que assumissem o ônus na ponte para o futuro que não passava de uma ida para o passado velho e conhecido.
Perceba que desde então, 10 anos, o Brasil só patinou. Nos mandatos de Temer e de Bolsonaro, nem uma resma de desenvolvimento, mais emprego, mais renda, coisa nenhuma se viu.
E estamos novamente voltando aos eixos, não por acaso, nas mãos do presidente Lula.
Mas a questão da distribuição da renda permanece, porque o Brasil é o país de maior concentração de renda do mundo. Não somos um país pobre, mas um país de pobres, porque a riqueza fica toda nas mãos de poucos.
E não há saída para nós, além do crescimento econômico e do investimento, que o governo não pode realizar sozinho de maneira sustentável. Ele pode e dá o impulso, que precisa ser acompanhado pelo investimento e pela crença geral no progresso. Sem isso, o voo é aquele da galinha, como tantas vezes vimos acontecer.
Que não é o caso agora. O investimento privado começa a voltar, a batalha dos juros, apesar dos pesares, tem previsão de arrefecer a partir de janeiro e isso obriga os investidores a repensar planos, sabendo que a derrama de dinheiro da Selic tem prazo para começar a secar.
Entre uma coisa e outra, exatamente onde estamos agora, disputamos os custos da retomada dos investimentos, da valorização do salário mínimo, da concessão justa de aposentadorias que foi sabotada, do orçamento digno da saúde e da educação, entre tudo o mais que estamos vendo acontecer.
O dinheiro então precisa sair de algum lugar, e é aí onde a disputa se instala, sempre e sempre e novamente e de novo e de novo.
A reforma tributária mostrou seu lado, desonerando alimentos da cesta básica, contas de gás e luz para os mais pobres, e uma série de medidas que preservam o lado carente da população. O quadro acima mostra do que estamos tratando, porque de algum outro lugar os recursos que nunca estão sobrando precisam ser compensados.
É o que estamos disputando agora, hoje.
Durante a semana, o ministro Haddad tem sido atacado de todas as maneiras como uma pessoa que está aumentando impostos e taxando tudo e a rodo. Quando, na verdade, o nosso índice geral de cobrança de impostos caiu, para níveis inferiores ao do governo anterior.
A chiadeira, entretanto, tem seu fundo de verdade, porque o imposto caiu para a maioria pobre e subiu para a minoria rica, embora no todo tenha diminuído.
E a reforma tributária ainda nem está em vigência. Estamos nas dores do parto, e no ano que vem, aí sim, nasce a criança. Depois, teremos a disputa ainda mais acirrada do complemento da reforma, quando entra na pauta o imposto de renda.
E o conflito distributivo se reinstala, como sempre.
Um governo popular e preocupado com o desenvolvimento sustentável e igualitário de seu povo tem um lado, nunca devemos nos esquecer. Eles lá têm suas razões para gritar, e nós muito mais.
Uma coisa muito interessante acontece quando o mercado, na falta de um candidato que cumpra suas obrigações de manter a economia centralizada nas mãos de poucos interesses e conceda algumas migalhas para todos os demais, apela para qualquer um desde que a peteca do liberalismo não caia.
No caso dos EUA, ambos os candidatos cabem no figurino, mas Trump, com sua agressividade e radicalismo pró-mercado, além do discurso elitista, exclusivista, excludente e racista, agrada ainda mais aos super ricos.
A parte divertida de Trump é que ele não finge tanto quanto normalmente fazem os líderes do norte. Ele chuta o balde das aparências e deixa todos atordoados e sem saber exatamente como reagir. Porque, na verdade, muitos dos dogmas e roteiros que tanto fazem questão de preservar não entregam resultado nenhum em contrapartida, ou o fazem de forma medíocre, como se qualquer outra situação prevalecesse.
Por exemplo, Trump acabou de dar uma entrevista – que você não vai ler aqui no Brasil em lugar nenhum – na Bloomberg, que é um bunker na defesa de teses liberais, e mandou um recado para o presidente Powell do Banco Central do EUA , para que não reduza os juros até novembro, quando a eleição do novo presidente se decide.
Além disso, afirmou que Powell, cujo mandato no suposto banco central autônomo vence em 2026, será respeitado por ele se Powell “fizer a coisa certa”.
Além de evitar cortes dos juros nos EUA, Trump não explicou mais nada sobre o que consistia “fazer a coisa certa”.
Mas o recado está dado.
A Bloomberg está perplexa, seus comentaristas, analistas e jornalistas estão incrédulos, temem uma hecatombe ou coisa parecida. Mas o recado está dado. E o provável novo presidente – segundo as pesquisas atuais – não garante autonomia nenhuma ao FED e muito menos respeito a mandatos supostamente intocáveis.
Numa pernada, manda tudo às favas e a máscara dos liberais cai. Mais, ficam inteiramente nus, sem nenhuma reação ou alternativa diante da vontade soberana do presidente eleito.
Alguma coisa me coçou aqui, quando lembro que engolimos dois anos desse cretino no nosso Banco Central boicotando a política do novo presidente e do seu programa eleito. Talvez Trump tenha alguma coisa a nos ensinar.
Ou ele vai trazer só confusão e descrédito para a política econômica nos EUA?
Ano que vem saberemos, ou não. Mas que ele nos provoca, isso ele faz. Talvez porque, em alguns momentos, damos crédito demais e levamos a sério demais algumas coisas que nem merecem tanto crédito e nem são tão sérias.
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