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Blog do Franco

  • A um passo da estagflação.

    agosto 26th, 2025

    Enquanto ouvimos as notícias de que o preço da carne subiu 40 a 50% nos EUA, e Trump agora ameaça a China com tarifas de 200% se não fornecer os ímãs para as suas indústrias, sobretudo eletrônicas, vamos acompanhando o mercado de trabalho no gigante do norte e aí também a coisa não anda nada boa. Meses de quedas seguidas nos números das contratações e até a demissão do responsável pelo levantamento estatístico oficial. Aparentemente, destruir o emissário evita novas péssimas notícias.

    E o Fed, o banco central dos EUA, tem duplo mandato: inflação e emprego. Diferente do nosso Banco Central, que tem somente a missão de controlar a inflação – e por isso pode provocar queda da atividade econômica com juros na lua –, por lá eles precisam manter um olho no gato e outro no peixe, e sem piscar.

    Por isso, o dilema de setembro.

    Enquanto a inflação corre o risco de disparar, por conta das tarifas alucinadas e sem critério, o nível de emprego engatinha e arrisca jogar os EUA em uma estagnação, somada à inflação: a temida estagflação, o terror dos mundos.

    Pode ser que, tendo em vista a pressão por juros mais baixos e consequente dólar desvalorizado – o que nos favorece no momento –, o Fed não tenha saída e aceite fazer o jogo exigido. E solta o gato e mantém os olhos no peixe.

    Não é uma posição confortável, mas uma inflação pode ser o objetivo de Trump, promovendo aumento da arrecadação também pelo lado inflacionário, correndo o risco de anular o efeito da queda do câmbio por conta da inflação.

    Se ficar o gato come, se correr o gato pega.

    Não tem solução fácil para o déficit fiscal nem para a conta corrente extrema dos EUA, e Trump pode estar correndo à toa. O aumento da inflação vem aí com as tarifas, e vamos ver se conseguem evitar a estagnação econômica na hipótese de promoverem a queda dos juros a partir de setembro.

    Nesse caso, o câmbio aqui no Brasil agradece.

    Se vai funcionar por lá toda essa manobra, a ver. Há quem diga que as manobras cambiais na China anularam, nos últimos anos, a onipotência dos EUA em inundar o mundo de moeda sem lastro. Porque, sem conseguir manipular o câmbio a seu favor, como sempre fizeram, e sem a China aceitar entrar no jogo, acabaram ficando de calças curtas e com perigo no seu financiamento de déficits no futuro. Por isso, tanta correria agora para tentar sair do pântano. Tudo leva a crer que, sem sucesso, a decadência nesse aspecto está contratada.

    A ver: os próximos anos dirão se o mundo consegue se ver livre do jugo total do dólar em nível que manteria os EUA uma grande potência, mais uma, não mais a única.

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  • A caminho de 2026.

    agosto 25th, 2025

    Eu sempre me guiei pelas análises de Marcos Coimbra, do Vox Populi. Lembro que eles só erraram em 2018, na disputa entre Bolsonaro e Haddad. Em todas as décadas anteriores — e mesmo depois, com presença mais discreta — o instituto trabalhou bem.

    Na virada do ano, com a queda da popularidade de Lula nas pesquisas — fato explorado à exaustão pela mídia corporativa, na ânsia de consolidar um “anti-Lula” no bolsonarismo sem Bolsonaro —, Coimbra sempre repetiu: não é para levar muito a sério pesquisas de opinião tão distantes da eleição. O motivo é simples: grande parte do eleitorado brasileiro não se interessa por política no dia a dia e deixa para decidir o voto perto dos pleitos.

    Enquanto isso, tentávamos entender as razões da queda da popularidade. E, ainda que não fosse uma definição eleitoral, mas circunstancial, a inflação crescente — sobretudo de alimentos — pesava contra o governo. Depois, com o aumento dos juros, a queda do dólar e a consequente redução do preço das commodities em reais, o custo da cesta básica foi diminuindo. Colocando em perspectiva: a curva de queda da inflação e a curva de recuperação da popularidade do governo e do presidente estão claramente ligadas.

    Agora, quando a popularidade caminha para um ponto mais “normal”, Coimbra mantém sua posição e vai além: prevê que Lula chega em 2026 como o mais favorito de todas as eleições que disputou. Ele lembra ainda que o eleitorado petista nunca ultrapassou 50% do total, mas está muito próximo dos seus números históricos, a um ano da eleição.

    Diante desse quadro e do cenário da oposição, é difícil discordar da avaliação.

    E como se não bastasse o estado deplorável da direita — sem um nome nacional para a disputa —, há uma mudança importante na presidência do STF: Fachin assume no lugar de Barroso. Isso pode complicar bastante a vida do bolsonarismo. O julgamento do primeiro núcleo de golpistas, que reúne os principais articuladores da tentativa de golpe de Estado e de assassinato das mais altas autoridades nacionais, deve ser concluído entre setembro e outubro.

    A diferença é que Fachin, segundo revelou a Folha de S.Paulo, tem preferência por decisões colegiadas em casos de grande repercussão, e não apenas nas turmas. Se isso se confirmar, a decisão da primeira turma terá recurso ao Pleno, inevitavelmente. Para Barroso, a questão estava resolvida ali. Com Fachin, vamos ter que esperar para ver.

    E, nesse cenário, não dá para descartar que o julgamento no Pleno, em outubro, se estenda ainda mais, caso surja um pedido de vistas da dupla dinâmica Mendonça e Kassio (com K), empurrando a decisão para fevereiro ou março de 2026.

    Isso não muda o destino dos golpistas, porque no Pleno a condenação é líquida e certa. O que muda é o tempo da decisão sobre quem será o sucessor ungido pelo chefe preso e impedido de disputar. E convenhamos: enfrentar um presidente eleito sem um nome consolidado seis meses antes da eleição já é tarefa duríssima. Fazer isso contra Lula torna-se quase impossível. Quase, porque não há certeza absoluta sobre o futuro, mas a previsibilidade, nesse caso, é clara.

    A conversa de que “qualquer um vence Lula no segundo turno” desapareceu do noticiário. Sempre foi ridícula. Agora, todos sabem que precisam buscar posição com os pés no chão, sem ilusões.

    Por isso, assistimos a um realinhamento político frenético, com acordos anunciados todos os dias. É pura sobrevivência. As cartas começam a aparecer na mesa de forma clara.

    Façam suas apostas.

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  • O julgamento da História e a importância do resultado.

    agosto 24th, 2025

    O julgamento dos núcleos envolvidos na tentativa de golpe de Estado que levou ao 08/01 começa em setembro, conforme calendário divulgado pelo STF, e se estende ao longo do mês.

    Mais para frente teremos alguns pontos a observar, porque o ministro Barroso deixa a presidência nas próximas semanas, e o recurso ao plenário — inevitável por parte dos acusados (e provavelmente condenados) — passa para as mãos de Fachin. Vamos ver se decide assentar a decisão na Primeira Turma ou mandar para o Pleno. Depois trataremos disso.

    Importa agora situar o julgamento na história e dar a ele sua importância, porque está sentado no banco dos réus não somente um cretino abilolado e incompetente, mas a fina flor do Exército brasileiro e alguns dos principais nomes das Forças Armadas das últimas décadas. Alguns, como o general Heleno, com vínculos pessoais com o que de pior havia nos quadros militares de 1964. E parece que essa banda — maioria? — guardou vergonha e ressentimento até conseguir, no momento do impedimento do nosso maior líder popular, tentar a sorte nas urnas e vencer, para mais uma vez mostrar toda a incapacidade administrativa e até intelectual, limitações cognitivas e visão de mundo distorcida, incompleta e alienada. Ou seja, mais uma vez. E felizmente, por um período relativamente curto de 4 anos, nossas Forças Armadas mostraram o quanto são incapazes de gerir o próprio nariz, quanto mais um país grande, complexo, diverso e em construção, como o nosso.

    Como estamos tratando de um histórico de séculos de ataques autoritários e frequentes das Forças Armadas contra as instituições do país — seguidos golpes e contragolpes, autogolpes, perseguições, torturas e mortes —, o fato de conseguirmos pela primeira vez colocar essa gente na cadeira e promover julgamento duro por todos os crimes cometidos, não nos permite esquecer com o que e com quem estamos lidando, nem o valor didático que as consequências levadas a termo, com penas pesadas, terão para o futuro de nossa relação com os autoritários, civis e sobretudo militares.

    O “vale tudo” pelo poder encontra um limite. Por isso, todo cuidado é pouco, e barrar qualquer tentativa de anistia — seja qual for e para quem for, dos envolvidos nesses crimes — não pode ser aceito em nenhum grau ou alcance.

    De anistia em anistia, ao longo da história, para esses crimes, fomos preparando gerações e gerações de grupos armados sem escrúpulo e acostumados a aventuras sem consequências.

    Não mais.

    O que se espera é a profissionalização das Forças Armadas e o enquadramento dos golpistas civis no julgamento que estamos por concluir. Os crimes são conhecidos e inaceitáveis.

    E esperamos também que sirva de lição e que nunca mais tenhamos que enfrentar situação igual ou semelhante, até porque daqui em diante estão sabendo dos riscos reais que correm por tentar.

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  • Milhões e milhões sem explicação. Ou tem?

    agosto 22nd, 2025

    O COAF, que não é composto por amadores, teve seus levantamentos das contas do ex-presidente, de sua esposa e de dois de seus filhos revelados — ou vazados, como queira ( Correção : não foram vazados, constam em inquérito público). O que antes era suposição agora vira certeza, com uma dúvida inevitável: de onde vem tanto dinheiro?

    Somados pai, esposa e dois filhos, estamos falando em mais de R$ 40 milhões em pouco mais de um ano. Isso significa um ganho diário de mais de R$ 109 mil. Repito: R$ 109 mil por dia.

    E o detalhe é que nenhum dos envolvidos tem empresa, presta algum tipo de serviço ou recebe dinheiro de fonte legal — além dos salários já conhecidos de ex-alguma coisa, vereador, deputado e da esposa como funcionária de partido. Então, afinal, de onde vem tanto dinheiro?

    É verdade que houve aquele Pix que o ex-presidente recebeu de apoiadores no ano passado, cerca de R$ 19 milhões. Também existem os salários de todos eles, que somados para o período chegam, vá lá, a uns R$ 4 milhões. Mas mesmo assim, ainda falta explicar R$ 17 milhões — e isso porque o levantamento divulgado cobre apenas um ano.

    Agora, pense: estamos falando de quem possui mais de 100 imóveis, sendo 50 deles comprados à vista, sem nenhuma fonte de renda que justifique tamanho patrimônio. Se desta vez o COAF e a Receita Federal não agirem com rigor, apurando de onde vem essa fortuna, então só restam duas opções: ou param de divulgar esses números que não resultam em nada, ou avisam de uma vez que está tudo liberado e ninguém mais precisa declarar, justificar renda nem pagar imposto neste país.

    A ver.

    E ainda tem o caso do Flávio, que compra mansão em Brasília com dinheiro que afirma vir de um escritório de advocacia que nunca teve cliente — e todo mundo sabe disso.

    Agora imagine o movimento dessa turma em 10, 20 anos.

    Rachadinha só não explica.

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  • Não chore por mim etc e tal.

    agosto 21st, 2025

    ” 247 – O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) pediu ao pai dele, Jair Bolsonaro, que se apressasse em manifestações de apoio ao presidente norte-americano, Donald Trump. A Polícia Federal indiciou os dois políticos da extrema direita brasileira por obstrução judicial no inquérito da trama golpista. 

    De acordo com informações publicadas nesta quarta-feira (20) pelo Portal G1, Eduardo demonstra preocupação de que o republicano “vire as costas” ao Brasil e “passe para a próxima”, caso não recebesse um gesto público de Jair Bolsonaro.

    “Opinião pública vai entender e você tem tempo para reverter, se for o caso”, afirmou Eduardo ao pai dele. “Você não vai ter tempo de reverter se o cara daqui virar as costas para você. Aqui é tudo muito melindroso, qualquer coisinha afeta”, continuou. 

    “Na situação de hoje, você nem precisa se preocupar com cadeia, você não será preso. Mas tenho receio que, por aqui, as coisas mudem. Mesmo dentro da Casa Branca tem gente falando para o 01: ‘ok, Brasil já foi. Vamos para a próxima’.”

    Em seguida, Eduardo reforçou a necessidade de Bolsonaro publicar mensagem de agradecimento a Trump. “Eu quero postergar este bom momento de agora, mas se o nosso cara vai encontrar o 01 sem nenhum tweet seu, te adianto que isto não será bem recebido.”

    Ontem à noite comecei a preparar o post desta manhã (sim, precisa preparar com tempo) quando surgiu a primeira informação do conteúdo do celular do Bolsonaro, aquele apreendido durante a imposição das cautelares. Ficamos sabendo da minuta em que o ex-presidente preparava o pedido de asilo político na Argentina. Mas sabíamos que a capivara seria muito maior e que uma enxurrada de diálogos entre Bolsonaro, Eduardo e Malafaia atravessaria a noite.

    Copiei a reportagem acima do 247 como exemplo, mas o pior trecho foi o diálogo de Bolsonaro com o advogado de Trump, em que combinavam ideias e reações que agradassem os EUA para promover o ataque institucional e econômico atual. Me parece de enorme gravidade as tratativas e tudo o mais, absurdo e confirmando a traição aos próprios eleitores, aos governadores que os apoiam, a Tarcísio, a todos menos a si próprios. Deixam claro que até Trump está sendo enrolado nessa trama de milicianos. Claro que Trump tem a agenda própria e usa os traidores para seu interesse nos BRICS, mas também é usado por pai e filho na tentativa de escapar da prisão.

    Outra questão que fica clara é que, de fato, as sanções começam a descer na escala de preocupações de Trump em relação ao Brasil. Entramos na “geleia geral” do pacote BRICS e do balanço comercial, entre tantos, e a questão Bolsonaro começa a sair pela tangente. Isso provoca em Eduardo enorme preocupação, porque sente o chão começar a faltar sob os pés. Sem contar que Trump não será presidente para sempre, e o dia de pagar a conta com a Justiça brasileira vai chegar.

    Malafaia entra na roda e vamos guardar o conteúdo do seu celular apreendido ontem pela PF. Promete ser um festival muito, mas muito divertido.

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  • Taí o milagre. Falta o nome do santo.

    agosto 20th, 2025

    Seguramente o santo tem nome : Gabriel ( nome de anjo, a propósito)

    E segurou o dragão da inflação – e até agora das tarifas- na unha, contra todas as expectativas, inclusive as minhas.

    Vida que segue.

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  • Almoços e jantares.

    agosto 20th, 2025

    O presidente Lula vem promovendo almoços com ministros de sua base nesse início de semestre, decisivo para a formação de interesses visando à eleição de 2026. Aos poucos, todos os partidos que andam negando votos na Câmara e no Senado (se bem que em projetos, digamos, laterais) foram convocados a responder pela disposição de permanecer nos ministérios ou ceder o lugar para alguém mais fiel. O que temos visto até aqui é a confirmação, sem exceção, da disposição de permanecer nos postos.

    Uma segunda rodada de almoços incluiu o presidente da Câmara, essa semana, e depois da tentativa de bloqueio do plenário pela oposição desesperada. O resultado estamos vendo ontem, hoje e veremos na semana que vem: os projetos de interesse do governo andam a toque de caixa, enquanto anistia e fim do foro, alvos do bolsonarismo moribundo, não saem das intenções.

    E quem promoveu jantar ontem à noite foi o líder do União Brasil, Rueda, recebendo vários governadores de oposição e demais líderes da direita e do Centrão. O que se vê são juras de amor insinceras; todos reafirmam intenção de união no segundo turno, “se Deus quiser”, mas ninguém entrega ministério — nem o União Brasil, do Rueda.

    A situação de todos ali é delicada: dependem do aval de Bolsonaro para lançar Tarcísio — para perder — e nem isso devem obter, nem o aval, nem Tarcísio, que vai de São Paulo à reeleição para não ficar na chuva nos próximos quatro anos pós-2026. E tem uma questão aí que Tarcísio parece começar a entender: a necessidade do Centrão e dos partidos de direita nem é derrotar Lula, mas fazer bancadas e garantir o espaço dessa turma. E, para isso, até um Flávio da vida resolve para o sacrifício: perder a eleição para Lula e, talvez, liderar a oposição. Esse “liderar”, no entanto, tenho minhas dúvidas, porque o Centrão é como a hidra e tem muitas cabeças. Mas pode sim liderar o bolsonarismo, que, mesmo mais uma vez derrotado, sobrevive mais um tempo por aí. O Centrão, esse, sim, é eterno.

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  • Jogando parado.

    agosto 20th, 2025

    O tarifaço americano tem importância para a nossa inflação de curto prazo, principalmente em um momento em que alguns produtos não consigam ser redirecionados rapidamente para outros países. Pois há toda uma questão de estocagem que pode levar a solução inicial a ser direcionar para o mercado interno. Isso levaria ao aumento da oferta e os preços cairiam muito. Até por isso há uma mobilização das empresas para uma solução com os EUA. Se o caso não se resolver, pode haver um desequilíbrio na oferta de frutas, a exemplo da laranja e da manga, muito exportadas, e de carnes no mercado brasileiro, o que pode acentuar a deflação de alimentos que já aconteceria naturalmente.

    Mas quando olhamos para a outra ponta, o consumidor norte-americano, a leitura é oposta: escassez e aumento dos preços.

    Toda vez que você ouvir o presidente Trump comemorar o aumento de receitas de seu país, lembre-se de que estamos tratando de arrecadação de impostos. Quem promove o crescimento da arrecadação é quem paga o imposto, no caso o consumidor e, como mostra a ilustração do post, paga caro. Na foto que ilustra o Post, a carne de segunda moída está custando R$ 80,00 o quilo, o dobro do nosso custo, e custava menos lá do que aqui antes das tarifas. Que, a rigor, mal começaram a fazer efeito e já provocaram — leia atentamente — a demissão do responsável pelas estatísticas oficiais dos EUA, demitido porque divulgou números de empregos que não satisfizeram o chefe. Mas, a meu ver, o que Trump estava mirando não era nem o fiasco nos números de desemprego, mas o cálculo da inflação. O fato é que as estatísticas oficiais dos EUA, todas, estão sob suspeita a partir de agora. Aliás, na Argentina de Milei o cálculo da inflação também está sob suspeita. E no Brasil tivemos essa experiência de ajuste em índices estatísticos oficiais: durante a ditadura, quem fazia e divulgava o crescimento do PIB e da inflação era o ministro Delfim Netto — e eram manipulados.

    O que se verá é a crescente insatisfação do consumidor dos EUA e, para se prevenir do mau humor, Trump tomou as seguintes providências: colocou a força nacional nas ruas (lembrou do Temer intervindo no Rio de Janeiro?) e está mudando as regras eleitorais, e seu partido anda mudando o cálculo do número de delegados, alterando coeficientes para facilitar a vitória dos republicanos. Ou seja, um Bolsonaro do Norte em plena atividade, inclusive com ajuda militar. Sem falar do fim do voto pelos correios e da proibição de urnas eletrônicas nos EUA, que tenta impor.

    Depois, quando aquilo vai parar no pântano, como fizeram por aqui, tem gente que se assusta.

    Ah, e sobre o título: quem joga parado nesse imbróglio todo somos nós mesmos, o Brasil.

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  • Delírio Imperial.

    agosto 19th, 2025

    Reagindo à decisão do ministro Dino sobre o fato de que leis de países estrangeiros não valem no Brasil, a embaixada dos EUA publicou o comunicado acima.

    É verdade que o texto fala em jurisdição, mas também mantém o tom de ameaça.

    O fato de seguirem com foco no STF e, particularmente, no ministro Moraes começa a mostrar fadiga de material — parece que o arsenal anda vazio. Atacar o programa Mais Médicos, de 2013, confirma a falta de elementos para continuar ameaçando o Brasil.

    O governo brasileiro, empenhadíssimo em não escalar a piora das relações, finge que mantém sua postura estoica de seguir a vida, embora o ministro Haddad dê sinais de que a compreensão geral é de que, no momento, o que se tem está posto e será preciso nos virar daqui em diante, aceitando os fatos.

    Enquanto isso, o tempo não para e a posição brasileira conquista cada vez mais respeito da comunidade internacional, o que parece deixar os EUA ainda mais incomodados.

    Quando Lula chama Trump de imperador — ou de um pretenso imperador — o próprio e seu governo ficam visivelmente incomodados e sempre procuram responder, negar as pretensões imperiais.

    Se por um lado a posição brasileira segue angariando respeito, os EUA de Trump mostra não possuir rumo e tantas decisões erráticas e contraditórias – quando não inteiramente falsa, como no nosso caso – deixa o rastro da improvisação e a falta de rumos.

    Com consequências para todos, inclusive neles.

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  • Tarifas : um ano ou dois,segundo Haddad.

    agosto 18th, 2025

    Nosso ministro da Fazenda informa que as negociações com os EUA sobre tarifas estão paralisadas. E que as exigências permanecem sobre decisões institucionais inaceitáveis e, sobretudo, fora do alcance do poder executivo. Quanto à duração, estima entre um ano ou dois, o que significa dizer que não faz a menor ideia.

    Somado a esse tranco no nosso setor exportador, pouco mais de 10% do nosso comércio são bilhões — e os produtos qualificados, as manufaturas, e Haddad comenta, não deixa passar — e pela segunda vez seguida — sobre a taxa de juros restritiva: “demais”, segundo afirmou. Aqui ele faz mais do que comentar; a meu ver, prepara para um futuro mais breve do que distante uma queda nas taxas. É esperada, por parte do FED dos EUA, uma queda de 0,25% nas taxas, o que abriria a porta para fazermos o mesmo sem provocar turbulência no nosso câmbio.

    Não está difícil acompanhar a sequência das decisões econômicas. Tanto Brasil quanto EUA têm roteiro previsível, o que sugere uma certa qualidade. Por lá, o nível de abertura de empregos estagnou, e por aqui a atividade econômica anda de lado. Depois de um primeiro semestre de 2025 com 1,4% de crescimento, nesse segundo trimestre estaremos longe de repetir a façanha.

    E foi consciente: tentávamos controlar a inflação, sobretudo nos alimentos, que provocavam enormes dificuldades para a vida no nosso país. Como a inflação anda se ajustando, com previsões abaixo de 5% em 2025, um alívio nas taxas seria bem-vindo, permitindo renovar o movimento de crédito que anda sofrendo. Sem dúvida, a decisão anterior nos EUA, prevista para setembro, no mesmo sentido de queda das taxas, nos permitirá seguir sem provocar pressões no câmbio com consequências inflacionárias, como vimos no fim do ano passado até recentemente.

    A estratégia do BC de segurar a âncora cambial pelo chifre está funcionando, mesmo nessa travessia conturbada da economia mundial, estressada com as tarifas de Trump. Nossa moeda serve de refúgio para fuga de outras paragens, graças aos juros na lua, e pagamos por todo esse movimento, que caminha para ter valido o investimento.

    Daqui a pouco saberemos das conversas sobre a guerra na Ucrânia. Um acordo bem-vindo daria fôlego para a Rússia e afastaria mais ameaças de tarifas por conta da nossa parceria nos Brics com eles. É uma boa notícia, diante das circunstâncias.

    E a inflação nos EUA e a ameaça de estagnação econômica podem, mais à frente, abrir espaço para uma negociação mais decente e dentro das regras civilizadas.

    Sonhar é preciso, além de navegar. Aliás, precede.

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