Robin Brooks, economista-chefe do Goldman Sachs, muito ativo no X (antigo Twitter), reconheceu que o Brasil está enfrentando um ataque especulativo contra sua moeda.
Os motivos apresentados por ele, no entanto, são bastante questionáveis. Brooks atribui o ataque à tentativa do governo de limitar a política monetária do Banco Central, que tem mantido sucessivos aumentos na taxa de juros.
Não pretendo entrar nesse mérito, até porque, por aqui, ninguém tem relacionado o câmbio elevado diretamente a uma suposta interferência do governo na autonomia do Banco Central. Para ser honesto, até gostaria que essa relação fosse verdade — mas, infelizmente, não é.
As avaliações sobre o real desvalorizado são múltiplas: descontrole fiscal, alta inflação, e outros fatores de menor relevância. Porém, o fato central permanece: nem Brooks, nem analistas internos, tampouco especuladores chegam a um consenso sobre as razões para a disparada do dólar. A única unanimidade parece ser o interesse em prolongar o ataque especulativo para maximizar ganhos. Quanto mais variáveis entram no jogo, melhor para eles.
De minha parte, fico satisfeito pelo simples reconhecimento, vindo de um grande banqueiro, da verdadeira natureza do que enfrentamos: um ataque especulativo. O cenário é, de fato, favorável para isso: o atual presidente do Banco Central, prestes a sair, parece inerte diante da especulação criminosa, enquanto seu sucessor ainda não assumiu e tampouco explicitou suas intenções.
Haddad apareceu hoje para tentar tranquilizar o mercado. Segundo ele, a pressão exagerada sobre o câmbio deverá se corrigir em breve. Concordo que Haddad conhece o novo presidente do BC, Gabriel Galípolo, e que o governo tem recursos para frear essa situação quando decidir agir. Esperemos que o momento certo esteja próximo.
Aprovada ontem à noite a primeira parte da reforma tributária, resta agora a votação sobre renda e patrimônio, prevista para 2025.
Observe, na ilustração, o mapa de votação por partidos políticos e note como praticamente todos votaram a favor. Essa dinâmica tem sido a regra nos últimos dois anos, e antes de Lula assumir a Presidência, quando medidas importantes já eram aprovadas em meio ao caos evidente do desgoverno anterior.
Um levantamento simples das aprovações na Câmara e no Senado revela um padrão: inicialmente, há negativas categóricas, seguidas de negociações e da liberação de emendas, culminando em votações favoráveis ao governo. Sobre as emendas, tema que já comentamos aqui, se há suspeitas de compra de votos, é papel do Ministério Público Federal e da Polícia Federal investigar possíveis desvios ou irregularidades. Ao governo, cabe assegurar transparência, algo que o STF tem ajudado a garantir.
A grande inovação da reforma tributária está na distribuição de renda, incorporada à medida. O cashback na cesta básica é uma verdadeira revolução no custo da alimentação. A tarifa zero representa uma conquista histórica, equiparável ao reajuste do salário mínimo ou à criação do 13º salário — um marco que será lembrado por gerações.
Essa medida, no entanto, não deve ser encarada como trivial ou algo que “caiu do céu”. Da mesma forma, a isenção de impostos para quem ganha até R$ 5.000 em 2025, combinada com a tributação progressiva sobre altos salários, também marcará uma transformação significativa na estrutura fiscal.
Essas mudanças são passos fundamentais para a história da justiça tributária no Brasil.
Atingimos o que os jornais insistem em repetir como o maior valor do dólar desde o Plano Real. Em post anterior, expliquei a sandice de comparar cotações sem considerar a atualização inflacionária. O dólar, ajustado ao longo do tempo, já chegou a valer mais de R$ 8,40. Ainda assim, persistem nessa cretinice para estimular o pessimismo.
De fato, a pregação do bolsonarista Campos Neto, somada à mudança na presidência dos EUA e às ameaças de tarifas astronômicas no comércio global — que devem provocar inflação e aumento de juros por lá —, têm causado turbulência . Basta olhar para a Alemanha, França e Canadá, onde, por motivos distintos, mas todos relacionados a incertezas, os governos têm balançado.
Por aqui, na ausência de crises, inventam. A tal “crise fiscal” simplesmente não existe: o arcabouço fiscal previsto para 2024 será cumprido, e as projeções para 2025 e 2026 seguem a mesma trajetória. O que está sendo usado como justificativa é a dívida bruta, que se retroalimenta com aumentos consecutivos de juros.
O fim de ano, como sabemos, é sempre marcado por envio de bilhões para as matrizes, manobras para esconder patrimônio do fisco e especulações típicas do período pré-férias. Como o atual Banco Central é parte do problema, e não da solução, continuamos reféns dessa instabilidade.
Com a chegada de janeiro, a passividade do BC — algo sobre o qual já manifestei — parece cada vez menos provável. A aposta contra o real se torna uma ameaça real e, mesmo a contragosto, alguma ação precisará ser tomada.
Eu defendo a adoção de uma banda cambial atrelada ao superávit comercial, nos moldes da banda da inflação. Isso permitiria uma volatilidade razoável e previsibilidade, além de desestimular a especulação. A banda inflacionária depende de decisão do Conselho Monetário Nacional, que, pelo visto, não tomará nenhuma atitude tão cedo. No entanto, deveria agir rapidamente para que 2025 comece com os pés no chão.
Vai gerar confusão? Vai. Mas, se deixarmos o dólar… livre como está, a confusão vem ainda maior em inflação e desinvestimento. Que, aliás, já começaram.
Eu costumo dizer — e não estou brincando — que a última vez que assisti a um programa jornalístico na Rede Globo foi quando meu pai comprou uma TV colorida, e os únicos programas que passavam a cores eram a dança no início do Fantástico e o Jornal Nacional. Depois disso, nunca mais.
Mas ontem, nosso Lula deu uma entrevista ao Fantástico, logo após receber alta do hospital, e, sem dúvida, fez muito bem.
Estamos naquela fase em que é necessário falar para todos, porque todos precisam ter a oportunidade de ouvir, perguntar e receber as respostas. Como na grande mídia o presidente e seu governo quase não aparecem — ou, quando aparecem, é de forma depreciativa ou negativa —, uma oportunidade de falar e ser ouvido é sempre bem-vinda.
É evidente que nem Lula quer, nem a grande mídia deseja, fazer do chamado PIG o principal canal de comunicação. Mas a saída do hospital foi uma daquelas raras ocasiões em que um momento de solidariedade, mesmo que relativo, diante do susto e da rápida recuperação, abriu espaço para o diálogo.
A intenção primeira era se mostrar inteiro, recuperado e pronto para o trabalho.
Quem viu, viu. Quem aproveitou, aproveitou.
A repercussão indica que Lula conseguiu furar a bolha dos adversários e transmitiu sua mensagem de maneira positiva, como costuma fazer.
Muita gente, de diferentes lados, pode até se incomodar com o episódio. Porém, a trégua proporcionada por essa delicada ocasião deveria, talvez, servir de lição a todos.
A prisão de um general de quatro estrelas marca uma etapa inédita na história do Brasil. Pela primeira vez, golpistas e fascistas antidemocráticos, que utilizam o aparato público, especialmente dentro das Forças Armadas, estão sendo responsabilizados por seus crimes.
Estamos falando de séculos de crimes acumulados e de uma omissão histórica das instituições no combate a essa mentalidade autoritária. Não há precedentes para o que está acontecendo hoje. Este momento inaugura a soberania institucional e democrática contra o autoritarismo e a traição, mascarados sob o manto de um falso patriotismo.
O “verde e amarelo” dessa gente tornou-se o símbolo visível da violência, do entreguismo, da covardia e da afronta institucional.
O que aconteceu hoje não é uma vingança, mas uma afirmação de que o Brasil está enfrentando, enfim, essa presença nociva em nossa sociedade. Este é o início de um esforço histórico para aprofundar o momento atual, responsabilizando todos os demais envolvidos nessas tramas sombrias. Se ainda não estamos virando a página, demos hoje um passo decisivo nessa direção.
Há, no entanto, muito mais a ser feito. Há mais pessoas envolvidas, mais conspirações a serem expostas, e é essencial garantir apoio e vigilância para que todos paguem por seus crimes.
É preciso que o Congresso apoie as decisões da Justiça e que o governo mantenha seu respaldo às instituições. Somente assim poderemos fortalecer a democracia, afirmar nossa soberania e trilhar o caminho para uma sociedade mais justa e comprometida com os valores democráticos.
A reação do campo progressista diante do aumento da taxa Selic no último Copom, sob a gestão do bolsonarista Campos Neto — exasperada, furiosa e vingativa —, trouxe-me algumas reflexões.
Lembro-me da época em que Collor propôs a abertura comercial do mercado brasileiro à concorrência externa. Lembro-me de ir ao supermercado e encontrar vassouras importadas, das mais simples e mixurucas. Foi um choque, um sinal de que estávamos encrencados. E, de fato, foi um desastre. Mas hoje, quando Lula assina e promove um acordo de livre comércio com a União Europeia, sob severas críticas da esquerda, pergunto-me: será que Collor estava completamente errado? Talvez ele tenha exagerado na dose, talvez tenha agido sem planejamento e critérios. Talvez a época fosse inadequada. O resultado foi desastroso, mas a ideia, em si, nem tanto.
Depois, vieram os tucanos, com FHC e as privatizações: aeroportos, telefonia, estradas. Algo que o presidente Lula ainda faz e que Dilma também realizou, mas que, na era FHC, parecia uma loucura para nós.
Então, o que condenamos foi a desonestidade nas privatizações tucanas? Elas foram mal feitas? Hoje estão melhores? Que setores o Estado precisa manter sob seu controle? Há um debate sério sobre isso? Não parece haver mais limites para essas decisões, mas sim uma curva de aprendizado, com controles maiores e problemas recorrentes, como corrupção.
Concordo que avançamos muito em concessões, contratos e controles. Porém, a ideia central das privatizações veio da época tucana e, hoje, parece ser amplamente aceita. Ou será que não?
(Alckmim agora é bom? Antes não era?)
Será que falta correlação de forças ? Creio que não. A ideia de um Estado inchado, sobre tudo e todos, parece ter ficado para trás. Hoje, buscamos preservar setores estratégicos, que mudam ao longo do tempo, enquanto seguimos em frente. Que as polícias e os juízes façam sua parte, que os consumidores se organizem e que os políticos sejam supervisionados. Assim funciona uma democracia moderna.
Nosso maior desafio talvez esteja na comparação com países que não escolhem seus líderes periodicamente, como China e Rússia, o que lhes permite planejar suas políticas a médio e longo prazo. Enquanto isso, em democracias liberais como a nossa, governantes revezam-se entre fazer e desfazer. Mesmo assim, prefiro continuar em uma democracia, mas precisamos evitar esse pêndulo que vai de um extremo ao outro — é um atraso de vida.
Onde quero chegar?
No aumento dos juros e na reação do campo progressista. Não se trata de estarmos sempre certos, honestos e infalíveis, ignorando ou criminalizando opiniões divergentes. Estamos deixando de ouvir os outros.
Foi o boicote o único motivo da subida astronômica dos juros? Só isso basta para quebrar a política econômica do atual governo, mesmo sabendo que, em breve, a direção do Banco Central será inteiramente indicada pelo atual governo? A nova diretoria desfará tudo que Campos Neto e sua gestão fizeram? A resposta é não. Não desfará.
Além disso, o aumento de 1% na Selic, previsto para janeiro, vai acontecer . Aposto. O previsto para março está recomendado, mas não garantido, dependendo de análises mais adiante.
Se continuarmos surdos ao debate, a frustração com a nova diretoria do Banco Central será inevitável. E, por extensão, com Haddad e Lula também.
Precisamos entender as razões por trás das medidas duras, sejam elas do BC ou das políticas de contenção orçamentária para cumprir o arcabouço fiscal. É essencial compreender os mecanismos econômicos, superar os limites, enfrentar dificuldades e evitar armadilhas. Fazer o Brasil crescer com soberania, inclusão e distribuição de renda. Esse é o diferencial. Essas são as propostas. Como fazer isso? Varia de tempos em tempos, e ninguém detém o monopólio da verdade, da honestidade ou da razão.
Quanto aos juros, aguardo as decisões de Trump, que podem agitar o mercado mundial e valorizar o dólar. Para nós, considerando a trajetória em que estávamos, isso seria desastroso sem as medidas preventivas agora.
Uma pausa estratégica para acumular energia é, neste momento, a decisão mais acertada.
Sem histeria. Em algumas semanas, saberemos para onde seguir.
Observe no gráfico acima que o centro da meta tem caído (subiu 0,25% em 2024), e desde 2023 convivemos com uma inflação próxima de 4,7% ao ano.
Por que, então, o Banco Central aumentou tanto os juros ontem e prometeu repetir a dose nos dois próximos encontros?
Tenho sido um crítico feroz da política suicida do nosso Banco Central. Nos últimos dois anos, assistimos ao bolsonarista Campos Neto mudar seu discurso de um problema inventado para outro, até conseguir justificar furiosos aumentos na taxa de juros e o preço absurdo do dólar nos dias finais de seu mandato.
A resposta é simples: convergiram algumas posições e alguns fatos externos que exigiam uma resposta antes que se tornassem um problema real.
Estamos falando de um câmbio a R$ 6, com apetite para subir ainda mais.
De tudo que vem sendo discutido, incluindo a ata do Copom divulgada ontem, que dá ênfase total à inflação (a meu ver causada, em grande parte, pelo dólar atualmente), a singela menção ao cenário externo quase passa despercebida. É como se quisessem disfarçar, sem deixar de citar, o maior e mais perigoso desafio dos próximos meses — talvez anos.
E esse desafio atende pelo nome de Trump e suas ameaças cada vez mais próximas de se concretizarem: aumentos de tarifas nas relações comerciais dos EUA com o resto do mundo.
O mecanismo de valorização do dólar nesse cenário — combinado ao aumento de juros por lá, algo que Trump também menciona abertamente — desenha um quadro de desvalorização generalizada das demais moedas, sobretudo nos países emergentes e na China, seu principal alvo inicial nessa anunciada guerra comercial.
Ao Brasil, restou agir preventivamente. O câmbio já está descontrolado na rotina nacional de especulação, misturando cenários distintos, entre invenções, boicotes e uma dose de preocupações fiscais exageradas.
Sim, era necessário antecipar a crise cambial que está programada para acontecer nas próximas semanas, cuja origem está em fatores externos sobre os quais nossa capacidade de reação e contenção é bastante limitada.
Dessa vez, nosso Banco Central acertou. Deu uma paulada no câmbio, mirando a inflação, e pode ter nos preparado adequadamente para a crise cambial nos países emergentes que está por vir.
Claro, o tamanho da encrenca será conhecido nas próximas semanas. Porém, é possível prever uma grande confusão e uma desvalorização generalizada das moedas nos países emergentes, motivadas pelas tarifas e pelo protecionismo interno que Trump tanto avisa e reavisa.
Em breve, saberemos se estamos, de fato, preparados. Por enquanto, acredito que sim.
Para finalizar, uma última entrevista de Trump : ” Tarifa é a palavra mais bonita de todas. Tarifas são lindas. Tarifas nos ajudarão a pagar a dívida. Tarifas contra China, México, Canadá. Tarifas de 20%, 30%, 50%, 100%. Tarifas nos tornarão ricos. Tarifas salvarão dezenas de milhares de empregos.”
É importante observar que a continuação da Reforma Tributária, especificamente a parte que trata da tributação sobre a renda, estava e está programada para 2025. Supostamente, esse seria um ano mais calmo, a uma distância razoável das eleições presidenciais e após as municipais.
O motivo da antecipação dessa discussão é que merece destaque.
Durante a construção do pacote fiscal apresentado pela área econômica — que avança sobre questões sociais relevantes e delicadas, de difícil ajuste, mas importantes e equilibradas — o presidente percebeu a necessidade de balancear a proposta. Ele apontou para uma reforma significativa, cumprindo uma de suas principais promessas eleitorais: isentar de Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês e incluir os ganhos acima de R$ 50 mil na base do IR para compensar a perda de receita.
Embora incluída no pacote que está em fase de discussão e aprovação no Congresso, as alterações no IR seguem o calendário anual e só entram em vigor no ano seguinte à aprovação. O que Lula fez ao antecipar o debate foi mais do que “dourar a pílula” do ajuste fiscal — embora tenha, de fato, suavizado a proposta. Ele pautou a discussão sobre a reforma tributária da renda, que parecia ser muito mais complexa do que a reforma tributária atual, já em fase final de aprovação. Lula pegou os congressistas desprevenidos, definiu o ponto mais relevante para o debate futuro e assumiu o mérito da proposta, algo que, nos debates , todos estariam interessados em compartilhar.
Por isso, os congressistas fingem não querer discutir a proposta de maneira imediata. Primeiro, porque não há possibilidade de implementá-la agora. Segundo, porque quanto mais o tema for debatido nos próximos meses, maiores serão as oportunidades para que todos reivindiquem uma parcela do mérito na aprovação.
Sim, e ainda lidamos com a chantagem envolvendo a liberação de emendas para nublar a aprovação de dois itens do pacote tributário nos últimos dias antes do recesso. E, não vejo dessa forma. Existe a chantagem, mas, na discussão atual, o governo busca agradar o Congresso e não apenas o STF, sem abrir mão da necessária transparência e prestação de contas. O Congresso sabe disso e deve votar o ajuste no prazo. Afinal, o mercado, ao qual a maioria dos deputados e senadores obedece, já precificou a aprovação e, com mais um aumento de 0,75 na taxa Selic a ser anunciado hoje, estará tranquilo para o recesso, aguardando o novo presidente do Banco Central assumir. Nós também estamos esperando para ver o que ele fará. Ou não.
Por fim, qualquer análise sobre o tema “Imposto de Renda” neste momento não passa de bobagem ou conversa fiada. Nada seria discutido agora, muito menos aprovado de forma apressada.
O IBGE informou que o crescimento acumulado nos últimos 12 meses, encerrados em setembro de 2024, foi de 4%. Somente em 2024, o acumulado já é de 3,3%.
No 3º trimestre:
A indústria cresceu 0,6%;
Os serviços aumentaram 0,9%;
O consumo subiu 1,5%.
Esse é o 13º trimestre consecutivo de alta do PIB brasileiro.
E, como a figura acima mostra, o mercado não acerta uma. Pior: agora fazem previsões que são sempre negativas, mas nos 4 anos do desgoverno anterior, erraram os 4 para mais. Ou seja, nunca foi previsão mas torcida.
Não deveria surpreender ninguém, afinal, para essa gente, o ministro “Posto Ipiranga” era quem estava no rumo certo, e quem sabe fazer ajuste fiscal é a Argentina de Milei. Sempre lembro daquela piada do cavalo que o dono queria ensinar a viver sem comer e, quando estava quase aprendendo, morreu. Não há dúvidas de que, atualmente, o “cavalo” é a Argentina. Já o “Posto Ipiranga”, por sua vez, dizia que o Brasil estaria igual à Venezuela — que, diga-se, cresce muito nos últimos anos, bem mais do que a Argentina, para que fique claro.
Mas o nosso assunto é o Brasil. Neste último trimestre, encerrado em setembro, o crescimento foi de 0,9%, seguimos firmes e devemos fechar o ano com pelo menos 3,5%, talvez até um pouco mais. Para lembrar: no início do ano, as previsões não passavam de 1,4%, e, no final do ano passado, estimavam apenas 0,8%. Um escárnio de incompetência e má-fé, sempre com as piores intenções.
A inflação deve terminar acima do teto da meta, mas está mais alinhada com a realidade nacional dos últimos 20 anos do que a meta de 3%, que nunca foi alcançada. Em um país em que 60% da população economicamente ativa vive com um salário mínimo mensal, não dá para tratar a inflação como a única variável relevante a administrar. É claro que ela é importante, mas sem esquecer do “cavalinho”, que precisa da sua ração para sobreviver. O resto é “Posto Ipiranga” ou Milei. E, em breve, veremos também as presepadas de Trump, que prometem um enorme desastre.
O investimento cresceu 11% nos últimos 12 meses. Embora a base de comparação fosse baixa, estamos falando de níveis semelhantes aos de 2011. O aumento da Selic, iniciado em setembro, ainda não teve impacto significativo, mas pode afetar mais intensamente o cenário em 2025, que parece ser o verdadeiro alvo dessa política. Entretanto, segundo Trabuco, do Bradesco, só em São Paulo há R$ 240 bilhões já alocados para investimentos em 2025, mirando 2026 e anos seguintes. Extrapolando para o restante do país, podemos estimar mais de R$ 1 trilhão em investimentos programados para 2025.
Esse é o cenário: nada de desespero. Nem o dólar nem os juros têm conseguido desestabilizar a economia.
E, só para constar:
Superávit primário da Argentina em outubro: R$ 4,3 bilhões (com motosserra, pobreza crescente, inflação ainda alta, recessão, etc.);
Superávit primário do Brasil em outubro: R$ 40,8 bilhões (o segundo melhor desde 1997, com crescimento, inflação controlada, desemprego baixo, etc.).
Ontem à noite, o governo enviou seu pacote de ajuste ao Congresso, com algumas ausências notáveis em relação ao que foi anunciado pelo ministro Haddad.
A ausência mais marcante é a que trata da aposentadoria dos militares. Segundo a proposta apresentada na reunião com Lula, os chefes militares sugeriram um período de transição para a total implementação da reforma, de nada menos que 40 anos. Não, não é piada. Essa é a forma como enxergam sua posição no cenário nacional, algo também evidenciado em um vídeo produzido pela Marinha, onde exaltam um suposto esforço incomum de trabalho, enquanto os civis, segundo eles, levam uma vida mansa. O fato é que os militares, até agora, não foram incluídos no pacote, como inicialmente previsto. Isso sugere que as negociações ainda estão em andamento — infelizmente.
Sobre o imposto de renda e a isenção até R$ 5 mil, parece haver certa ingenuidade na percepção do que está em jogo. Além de ser uma promessa relevante de campanha, o objetivo da proposta, além de “dourar a pílula” do ajuste fiscal como um todo, é antecipar, de forma definitiva, o debate sobre a reforma tributária, que estava previsto para 2025. O governo colocou um “totem” no centro das discussões, algo difícil de ser removido, pautando de maneira contundente um tema que prometia ser complexo. Com isso, talvez a reforma tributária, incluindo a cobrança de impostos sobre lucros e dividendos acima de R$ 50 mil, já esteja praticamente desenhada. Resta acompanhar, pois esse será um assunto para o primeiro semestre de 2025, com eventuais mudanças válidas somente a partir de 2026, como é sabido.
Há uma pressa visível em aprovar o pacote. Entre as medidas destacam-se a revisão do BPC, a limitação do reajuste do salário mínimo ao arcabouço fiscal e a criação de travas eficazes para o controle do teto salarial no funcionalismo público federal — travas que, embora sempre prometidas, nunca funcionaram. Agora, dizem que funcionarão. Essas ações caminham na direção correta: alinham recursos às receitas e ajustam indexadores entre si. No entanto, ainda falta avançar em áreas mais sensíveis, como as despesas com saúde e educação, que devem voltar à pauta no próximo ano.
Mais uma vez, fica claro que mexer com benefícios sociais e reajustes do salário mínimo, seja com razão ou sem, é a medida de ajuste mais fácil para qualquer governo. Já mexer com militares ou com o imposto de renda, aí a coisa nunca é trivial.
Vida que segue.
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