A vitória de Trump, que se desenha, é incontestável. Os norte-americanos aprofundaram a escolha em um extremista criminoso já conhecido. Na primeira vez, ainda se podia argumentar que era um desconhecido.
Mesmo com sociedades tão divididas, onde as definições de vitória se dão por pequenas diferenças, alguém precisa vencer e acaba levando quase tudo no final.
Quase tudo, pois o poder não é algo absoluto; ele vem acompanhado de disputas e se espalha em instâncias por vezes inacessíveis. Sim, é possível tentar impor políticas específicas, mas isso custa muito trabalho e investimentos. E tempo.
O que Trump simboliza para nós é a direita bolsonarista, o desastre recente que experimentamos. O que ele significa para os seus compatriotas, porém, me parece distinto. A começar pela renovação da promessa de fim das guerras, que foi uma das poucas coisas que ele reafirmou em seu discurso de vitória. Isso não é pouca coisa para os EUA e seu povo, como podemos imaginar. Também não é pouca coisa para nós.
Além disso, a retórica bolsonarista se fortalece, embora sem chances de comoção suficiente para reverter condenações e destinos de golpistas fracassados. Vamos todos virar essa página, inclusive eles, e o cenário futuro permanece na decisão do presidente Lula de tentar a reeleição ou não. O obstáculo da idade permanece – não para os próximos dois anos, certamente, mas para além disso. E vamos tratar muito desse tema daqui em diante.
Agora é esperar o que vem do norte, entendendo que temos muito o que pensar, e a expectativa não é das melhores. O freio de mão na política externa brasileira parecia puxado diante da preocupação com uma vitória de Trump, que agora é realidade. Em certo sentido, estamos posicionados para evitar, desde o início, crises envolvendo os países vizinhos, no que diz respeito à visão dos EUA sobre as questões atuais da Venezuela. Não imagino que tenha sido por acaso a decisão brasileira quanto a reconhecer a vitória de Maduro e o impedir de entrada nos Brics.
No final, vou deixar os argumentos do principal analista de eleições nos EUA que conheço.
Ele explica que os candidatos estão empatados nos principais colégios eleitorais, aqueles famosos sete estados que, de vez em quando, votam no democrata ou no republicano e decidem a eleição por lá.
Se nem os principais analistas conseguem opinar, quem somos nós? Nos resta torcer e observar a trajetória de Kamala, que precisou entrar na corrida em grande desvantagem, conseguiu reverter o favoritismo, e, embora Trump tenha mostrado recuperação, Kamala parece ter reagido na reta final. Para mim, ela é a favorita para vencer.
Mas talvez isso seja apenas torcida.
Fique com a explicação de Nate e torça. É verdade que Kamala não muda muito para nós, e pouco influencia o mundo. Trump, por outro lado, representa a extrema-direita no poder e empodera o que há de pior. Aqui também, embora o impacto seja questionável, já que Bolsonaro se aproxima de uma condenação.
Enquanto trabalha para promover cortes no orçamento, visando evitar o crescimento da dívida pública, o governo aproveita o momento relativamente favorável, com crescimento de 3%, inflação no limite da meta e negociações em andamento nas casas legislativas e, sobretudo, no Banco Central. Após uma eleição municipal complicada, a hora é de aproveitar a metade do mandato e “sujar as mãos” ao cortar excessos – e até mesmo sacrificar algumas partes importantes – para se preparar para os dois últimos e decisivos anos.
Mordeu.
Mas também assopra, pois a nova regra para liberação dos bilhões em emendas parlamentares ainda busca consenso, sendo que a vigilância e as exigências do STF são incontornáveis e favorecem a responsabilidade. Além disso, há notícias de que a nova LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) também está sendo revisada, e que a liberação desses recursos, incluindo as emendas parlamentares, estará condicionada a projetos do Executivo, evitando assim a pulverização de bilhões em obras pontuais, como reformas de praças ou asfaltamento de acesso ao sítio do prefeito.
Por enquanto, tudo ainda está no papel, mas, se uma coisa realmente está atrelada à outra, o “morde e assopra” reaparece em grande estilo.
(Vender dólares qdo a cotação sobe é o instrumento clássico dos Bancos Centrais para conter a especulação. O BC de Campos Neto fez 122 intervenções desse tipo no tempo do Bolsonaro. E só duas, ano passado, no governo Lula. Agora responda se o dólar dispara por conta de uma crise fiscal inexistente ou pela sabotagem de Campos Neto?! É criminoso o q estão fazendo com o país.@gleisi)
Observamos anteriormente que a volatilidade da moeda brasileira é uma das maiores do mundo. O real tanto se desvaloriza quanto se valoriza, em resposta aos movimentos internacionais, com quedas vertiginosas e subidas abruptas, muitas vezes sem motivo que não seja especulativo — atendendo a gatilhos de pouca ou nenhuma importância, mas favorecendo interesses voltados para ganhos financeiros na gangorra do mercado.
Quem supõe que um país com superávit comercial externo, como o Brasil, cuja economia se move com 70% da população ganhando dois salários mínimos mensais, onde a indústria, após décadas, começa a se recuperar e onde metade da população vive em subempregos, além dos 30 milhões de MEIs, crescendo a uma taxa de 3% ao ano, está crescendo acima de suas capacidades ou gastando de forma descontrolada e sem critérios, ou não dispõem de reservas suficientes, na verdade, não quer entender ou trabalhar com o cenário em que investimentos trazem bons resultados no futuro. O melhor para todos é que o país cresça cada vez mais.
Mas talvez esse não seja o cenário ideal para alguns, pois, do jeito que está, está ótimo para eles. Quanto mais volátil e especulativo o mercado permanecer, quanto mais picos de altas e baixas ocorrerem sem motivo aparente, quanto mais acuado estiver o governo progressista e desenvolvimentista, melhor. Sim, para alguns poucos, não existe cenário melhor.
E nada disso aconteceria se o nosso Banco Central atuasse no mercado futuro do dólar, que movimenta dezenas de vezes o montante normal das bolsas — algo exclusivo do Brasil — e impedisse os excessos, promovendo o equilíbrio macroeconômico e, sobretudo, combatendo a inflação que, supostamente, o Banco Central deveria conter, enquanto finge fazê-lo ao subir continuamente a taxa Selic, que já está nos maiores patamares históricos sem nenhuma justificativa objetiva para isso.
Sim, Trump quer valorizar o dólar, e até mandou recado ao Fed para não reduzir os juros nos EUA, como já havia iniciado e afirma continuar promovendo. Sim, os mercados globais antecipam cenários e se protegem, movimentando o preço do dólar para lá e para cá. Tudo isso cabe dentro das bandas de variação, jamais na volatilidade exagerada do real, e muito menos na omissão criminosa do nosso Banco Central.
Não por acaso, o atual presidente do Banco Central foi eleito, pela terceira vez seguida, o presidente de banco central do ano. Se eles estivessem do lado de cá, sofrendo com as decisões do banqueiro contador do Santander, duvido que estariam achando graça nos bilhões que desperdiçamos todos os anos.
E não sei se o próximo presidente do Banco Central, já nomeado pelo atual governo, vai melhorar esse cenário desolador. Vai precisar de uma coragem que, até agora, não demonstrou.
Mas, quem sabe? Em breve saberemos. Enquanto isso, dólar a R$6 e a vida segue.
Atualmente, é comum tentar resolver o “problema” do governo, como se ele realmente existisse. Não que não haja questões a serem abordadas, mas elas não são necessariamente as que estão sendo apontadas.
Antes das eleições municipais, não vi nem o governo nem o PT fazerem previsões sobre os resultados eleitorais. Aliás, com exceção do PL, que anunciou como meta alcançar 1.000 prefeituras e obteve 500, nenhum outro partido divulgou números antecipadamente.
Já analisei o resultado das eleições e refleti sobre ele, e não vejo necessidade de retomar o tema, pois, a meu ver, entre os vencedores está o governo.
Os gritos desnecessários sobre os próximos passos não estão condicionados pelos resultados municipais, para o desespero de alguns.
É justo e necessário se preparar para a eleição que realmente importa, em 2026. É razoável considerar os resultados municipais como indicadores, embora não como referência definitiva. Mas o verdadeiro jogo está apenas começando e, permitam-me dizer, quem está na frente é o presidente Lula.
Sim, existe a questão da comunicação, mas temos sobre isso um marco civilizatório, ético, moral e legal que orienta o comportamento durante o período eleitoral. Esse marco, que regula a mediação entre governo e povo, deveria ser respeitado ao longo dos mandatos. No entanto, o outro lado não o respeita, criando uma disputa desigual. Enquanto aguardamos a resposta da justiça sobre o crime cometido pelo governador de São Paulo, que divulgou graves mentiras durante o dia da votação com as urnas abertas, observamos que, dependendo da decisão judicial (ou da ausência dela – o que parece o mais provável), as disputas eleitorais podem escalar para níveis ainda mais profundos e ilimitados, repletos de abusos e inverdades.
Assim, nossas esperanças são desafiadas a permanecer em constante prontidão, engajamento e vigilância. Precisamos estar bem informados, com objetivos claros, para não cair nas armadilhas dos adversários.
O que fazer? Não é tão difícil. Busque manter-se bem informado por canais progressistas, ignore as mentiras, não espalhe escândalos sem verificação, confie nas respostas do governo que você elegeu e mantenha o foco na vitória em 2026, que depende de nós, e de mais nada ou ninguém.
Não tenha dúvidas de que o governo está fazendo e continuará a fazer sua parte. Que ele errará aqui e ali, e precisaremos ajudar a corrigir os rumos, tudo bem. Mas a disputa é profunda: é a razão e suas melhores escolhas contra a cegueira destrutiva do ódio e da divisão. Não percamos de vista o prêmio.
Passados quase dois anos do atual mandato e tentando desvendar os caminhos que nos trouxeram até aqui, vale a pena relembrar alguns fatos e assentar certos pontos para, quem sabe, seguir avançando.
Os males que nos afligem não começaram em 2013 com a guerra que nos atingiu; eles sempre estiveram latentes, escondidos desde o fracasso do regime militar, que precisou de duas gerações para que a vergonha fosse esquecida e voltasse a aflorar. Esses males sempre estiveram presentes: nas famílias, nas conversas, nas atitudes, na violência contra minorias, mulheres, negros, indígenas e, sobretudo, contra os pobres.
O caminho da contestação foi aberto pelo Judiciário com o Mensalão, pelas mãos de um juiz preto, nomeado pelo presidente de um partido que ele próprio viria a chamar de ladrões. Dali até 2022 foi ladeira abaixo, com o respiro da vitória de Lula contra o pior presidente que poderíamos ter tido.
Ao assumir em 2022, Lula enfrentava um Congresso hostil, dominado por grupos temáticos que transcendiam os partidos: as bancadas da Bíblia, da Bala e do Boi, os chamados “BBBs”. Mesmo assim, ainda durante o governo Bolsonaro, conseguiu aprovar o orçamento para o primeiro ano de mandato, anulando diversas tentativas de boicote arquitetadas pelo ex-presidente e sua equipe.
Depois, o começo foi muito semelhante ao de seu primeiro mandato, com a classe política esperando as decisões, na maioria das vezes rosnando e lançando “balões de ensaio” além de conviver com as propostas para transferir o poder real do Executivo para o Legislativo. O Congresso que assumiu era idêntico ao anterior, nem melhor, nem pior. Contava com mais representantes do fascismo, mas cujas limitações e incompetência relevantes impediam que representassem uma ameaça real. O estrago era mais retórico do que efetivo. E o resultado das eleições municipais mostrou os limites dessa força que acreditavam ter, mas que não têm.
Concluindo esse segundo ano, é possível afirmar que estamos em condições muito melhores do que no início do mandato. O Congresso, ainda que controle uma parcela enorme do orçamento, o que nem sempre foi usado de forma inadequada, como mostraram as reeleições dos prefeitos, mantém um enorme apetite. E só um presidente com a capacidade de Lula consegue, sem só ceder, surfar em ondas tão agressivas.
E assim tem sido. A decisão sobre sua reeleição encaminha-se naturalmente e, cá entre nós, sem adversário à altura. Mesmo Bolsonaro, que teria a vantagem de ter perdido anteriormente na presidência, não representa um real concorrente. O único adversário é a idade, mas Lula, que sempre repete e demonstra que isso não é um problema e anuncia que viverá até os 120 anos, vislumbra que continuará assim. É muito pedir para um ancião de 81 anos em 2026, mas é ele quem carrega as nossas esperanças de superar os males do Mensalão, da guerra híbrida, do golpe contra Dilma e da Lava Jato. Mais alguns anos de sucesso e tudo isso se tornará história. Mesmo que o fascismo persista, ele não terá forças para vencer. O pós-Lula será em um país social-democrata e próspero.
É nisso que acredito: Efeito Lula. A massa de salários em circulação no Brasil bateu recorde, alcançando R$ 327,7 bilhões em um ano. Esse resultado representa um aumento de 7,2% no trimestre encerrado em setembro deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Muita gente tem comparado a atuação dos presidentes da Câmara e do Senado à de dirigentes sindicais, com foco na defesa de seus próprios interesses.
Há um pouco de verdade na comparação, mas é preciso entender que isso depende da força do Executivo. O Legislativo muitas vezes reage às iniciativas e ao poder do Executivo, operando conforme os altos e baixos dos índices de aprovação do presidente, mas sem nunca perder de vista seus próprios interesses.
Vamos comparar apenas dois exemplos dos últimos anos: o governo Bolsonaro e o atual governo Lula.
Bolsonaro assumiu com um discurso anti-sistema – lembrando que ele sempre foi um deputado do chamado “baixo clero”, com décadas de mandatos acumulados – e iniciou seu período imaginando agir acima dos interesses partidários. Foi a época do auge dos BBB – Bala, Bíblia e Boi – com o governo acreditando que poderia superar blocos partidários ao negociar interesses de setores específicos mais alinhados com suas pautas conservadoras. Foi um tremendo fracasso, tanto que, na metade do mandato, ele negociou entregar o orçamento ao Congresso, criando uma prática que o atual governo precisou manter em parte – com a ajuda do STF para ao menos moralizar o envio, destino, aplicação e prestação de contas – para ter paz na condução de seus interesses. Aqui, o Congresso age de forma coesa, e o nome de Arthur Lira ganha destaque, mas, na verdade, o interesse geral impulsiona o presidente da Câmara, dando-lhe uma aura de poder. O próximo presidente, que assume em meados do próximo ano, terá o mesmo tratamento e vigor, como veremos, mas em condições de um novo governo, muito mais forte, competente, proativo e preocupado com resultados, como já se vê .
O governo Lula, por sua vez, iniciou em condições completamente opostas. Quem fazia barulho com ameaças e iniciativas radicais – como a tentativa de aprovação de um presidencialismo misto, que colocaria o Congresso no papel do Executivo – era o próprio Congresso. Aos poucos, porém, foi sendo domado por Lula, a ponto de terminarmos o segundo ano em relativa paz, na medida em que isso é possível, considerando a atual composição desigual entre oposição e governo nas casas legislativas.
Outra observação que faço é quanto às emendas parlamentares. Vistas quase exclusivamente como um sinal de corrupção explosiva, mostraram resultado nas eleições municipais. Não acredito que foi por meio de compra de votos que o desempenho dos reeleitos foi tão bom – nas cidades mais favorecidas por recursos das emendas, a taxa de reeleição chegou a mais de 90%, o que seria inviável por motivos óbvios. Mercadante sugeriu recentemente que os eleitores que reelegeram seus administradores municipais agiram como clientes satisfeitos, dispostos a manter seus prefeitos para que continuassem o trabalho. É uma sugestão interessante e nos faz lembrar que, nas presidências anteriores de Lula, os prefeitos também realizavam boas administrações e obras, talvez até mais do que vemos agora, porque tinham recursos para executar seus projetos.
Vamos agora para os dois próximos e decisivos anos do presidente Lula, com boas notícias na economia e na política. O alvoroço dos resultados eleitorais das municipais não teve grande impacto. Provocará algumas mudanças pontuais, mas o futuro, e não o passado, deverá prevalecer nas negociações daqui em diante.
Apesar da composição com o atual presidente da Câmara, Arthur Lira, e da eleição de seu candidato, vale lembrar que as coisas não ocorreram exatamente como planejado. Lira precisou trocar seu escolhido após o veto ao anterior, mostrando que sua força também sofre limitações.
Então a expectativa para os próximos mandatos sindicais dos presidentes das duas casa segue na mesma. Alcolumbre no Senado, nem novidade é, conhecerdor dos costumes que vai manter. Mota seria um nome novo, e talvez aqui Lira tentará manter sua influência sobre o jovem escolhido. O que, cá entre nós, é difícil de acreditar que consiga.
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Não passa despercebida a mudança no comportamento do Brasil no cenário internacional, e não estamos falando apenas de Venezuela, Nicarágua e BRICS, temas que têm gerado espanto em alguns e perplexidade em outros.
No caso da Venezuela, acompanhamos de perto a escalada das cobranças do Brasil pela realização de eleições, que culminou com o não reconhecimento do resultado, pois as atas de votação não foram disponibilizadas para conferência.
Embora essa questão tenha gerado discussões internas, um ponto crucial ainda não recebeu a devida atenção e talvez seja o mais incômodo de todos: o alinhamento do Brasil com os Estados Unidos em relação ao resultado venezuelano. Os EUA votaram de acordo com suas próprias posições, mas gradualmente foram assumindo uma postura em total concordância com a do Brasil, que até publicamente reconheceu esse alinhamento durante o processo.
A questão da Nicarágua teve menos destaque, mas a reação do Brasil, expulsando um diplomata nicaraguense, foi vista como desproporcional aos fatos conhecidos, destoando da tradicional diplomacia brasileira, historicamente paciente.
Chegamos então ao caso dos BRICS. Sem considerar a ausência de Lula, devido ao acidente doméstico recente, a presença brasileira no encontro de grande importância foi marcada pelo veto à entrada da Venezuela no grupo, representando mais um capítulo complexo nas relações com o país vizinho.
Pode-se atribuir a postura brasileira em relação à Venezuela ao papel de mediador que o Brasil assumiu no tratado de Barbados, entre oposição e governo de Maduro, acordo que previa eleições e um alívio nas sanções econômicas contra a Venezuela. No entanto, a alegação é de que os acordos não foram cumpridos, justificando as decisões subsequentes do Brasil. Mesmo assim, a posição brasileira tem escalado, chegando ao ponto de vetar a entrada da Venezuela nos BRICS, uma medida que foi dolorosamente sentida pelo país vizinho.
As declarações de Celso Amorim, assessor especial do presidente, não deixam totalmente claras as motivações do Brasil nessa guinada em sua política externa, que agora acompanha potências ocidentais e parece romper com décadas de cooperação mútua no continente.
Há especulações de que a mudança na postura brasileira tenha ligação com a relação bilateral com os EUA, especialmente com a possibilidade de vitória de Donald Trump nas próximas eleições. A postura brasileira, usando a Venezuela como um possível escudo de negociação, pode estar servindo para apaziguar relações, mesmo que de forma temporária, uma vez que Trump é imprevisível. Com o resultado das eleições nos EUA, poderemos compreender melhor as escolhas e os movimentos atuais do Brasil.
A entrada de Cuba nos BRICS também chama atenção, embora o tema tenha recebido pouca até o momento. Talvez isso ocorra pelo fato de que a ilha não é mais vista como uma ameaça significativa para os EUA, que inclusive permitem ajuda humanitária para aliviar a crise de apagões em Cuba.
Embora não tenhamos sinais definitivos, há sim uma inflexão do atual governo em direções inéditas, priorizando uma aproximação com os EUA e o Ocidente em detrimento dos BRICS. Circulam notícias de que o Brasil não ingressaria na Nova Rota da Seda chinesa, embora tenham sido desmentidas e o tema ainda siga indefinido. Em contrapartida, Lula tem promovido abertamente o acordo entre União Europeia e Mercosul, marcando contraste com outras negociações em curso.
Talvez o presidente Lula esteja buscando uma posição mais pró-Ocidente, procurando distanciar o Brasil do ambiente conturbado de disputas comerciais e até mesmo de conflitos armados que marcam o cenário mundial atual. Talvez ele esteja tentando resguardar os interesses nacionais dos excessos ideológicos, adotando um pragmatismo econômico essencial para o Brasil neste momento. Ou, quem sabe, o presidente tenha alterado sua visão sobre alinhamentos estratégicos, sentindo agora a necessidade de se posicionar de forma mais clara.
São muitas as perguntas ainda sem resposta, todas dependentes de soluções que promovam justiça, progresso e que preservem os interesses e mercados para o Brasil, alavancando nosso crescimento em meio aos desafios. Tudo parece condicionado, enquanto o Brasil tenta equilibrar pressões e manter acordos, na expectativa de que o cenário se torne menos incerto e que nossa posição, até para nós, se torne mais clara e menos volátil.
Enquanto isso, confiamos nas decisões e aguardamos os melhores resultados, ainda que, admito, sem entender todos os passos até aqui.
O fato de precisarmos retornar agora pela terceira vez para debater o resultado das eleições municipais mostra a dificuldade de entender e quantificar contextos complexos com respostas únicas.
Vou deixar aqui um resultado que fala por si só sobre se o PT deve ou não se deslocar mais para a esquerda:
O PSOL lançou 210 candidatos a prefeito — elegeu nenhum.
O PCB lançou 9 — elegeu nenhum.
O PCO lançou 43 — elegeu nenhum.
O PSTU lançou 37 — elegeu nenhum.
A UP lançou 22 — elegeu nenhum.
O PCdoB lançou 61 — elegeu 19.
O PT lançou 1.380 — elegeu 252.
Ou seja, a questão não é o PT ir mais para a esquerda. Se incluirmos o PDT nessa lista, ele foi um dos partidos que mais perdeu espaço. Então, na centro-esquerda — ou o lugar que o PDT ocupa — também não há solução.
A verdade é que 93,7% dos prefeitos mais beneficiados com emendas Pix foram reeleitos e, de maneira geral, 80% conseguiram a reeleição.
O PT, conforme vazado na reunião do diretório nacional ontem, convocada exatamente para avaliar os resultados, culpou o governo por priorizar o centro nas disputas.
E foi isso mesmo. Além da inércia própria das eleições municipais, em que mudanças dificilmente ocorrem bruscamente — e 80% conseguem reeleição —, a opção do governo, anunciada desde o início, seria de enfrentar os fascistas. E, nas sobras dos disputadíssimos 20%, cada um ganhou sua parte, mas a extrema direita foi, sim, contida. Esse, ao que me parece, foi o maior objetivo, sempre atrelado à manutenção da base de apoio do governo na Câmara e no Senado, o que acabou sacrificando o PT nas alianças para compor os interesses diversos em disputa.
Um ponto curioso nas análises, de maneira geral, é confundir as alianças de interesses próprios de governança com alianças programáticas. Enquanto as programáticas atrelam projetos comuns e até futuros, as de governança são volúveis e interesseiras. Não há nada de excepcional nisso, e a ambição de todos os partidos é alcançar o poder central, a presidência. Se fazem planos para isso, se tentam, insistem e conspiram, também não é nada excepcional. A questão para todos, inclusive o PT, é ter um candidato viável para não somente disputar, mas vencer. E esse candidato o PT tem: Lula. A presença de Lula condiciona as alianças e os projetos. Nada além da liderança de Lula mantém essa coalizão unida. Quando podem, os partidos tentam seguir sozinhos, ensaiam e se lançam, para saber até onde podem chegar.
E a vida segue.
Com o impedimento de Bolsonaro, eles precisam de outro nome para enfrentar Lula, e não têm. Mantidas as atuais condições econômicas — que prevejo melhorarem —, Lula segue como favorito para a reeleição, caso deseje concorrer. Tarcísio não vai arriscar, digo e repito: do lado de lá, há um deserto de nomes viáveis.
Neste momento, Arthur Lira retirou da CCJ a possibilidade de votação daquele projeto de anistia, que incluía Bolsonaro na tangente. Criou uma comissão, o que significa mandar o assunto para o espaço. Parece-me uma consequência do resultado eleitoral, que enfraqueceu a extrema direita, além da necessidade de compor com o PT para eleger seu sucessor na presidência da Câmara. E terá mais consequências para além da eleição na Câmara, com todos correndo para o centro em 2026, como veremos mais a frente.
Finamente, 80% de prefeitos reeleitos não sinalizam uma população satisfeita? Que as administrações estão aprovadas? E onde mais tiveram emendas PIX foi de 93,7% os reeleitos. O que mostra que nem tudo é roubo sobre emenda, como gostamos de afirmar.
O que pode ter levado o governador de São Paulo, o coronel do Exército Tarcísio de Freitas, a convocar uma coletiva de imprensa em meio à eleição para mentir sobre o candidato adversário, cometendo uma série de crimes eleitorais e passíveis de enquadramento penal, como injúria, difamação, abuso de poder econômico, uso de instituições para benefício próprio e disseminação de mentiras?
Considerando que seu candidato estava bem à frente nas pesquisas e que essa liderança foi confirmada nas urnas com folga, o motivo para tal atitude me parece um mistério.
Naquele momento, cheguei a pensar que algo não ia bem para o candidato dele, que alguma pesquisa da votação matinal havia acendido um alerta, provocando o ataque criminoso. Contudo, parece improvável que houvesse esse tipo de informação em mãos. Isso só aumenta o mistério.
Seja qual for o motivo — e é provável que nunca saberemos —, é evidente que os bolsonaristas e seus semelhantes cometem crimes sem o menor constrangimento, confiantes na certeza da impunidade. A própria presença desinibida do chefe do grupo nas eleições, sem responder por crimes passados e notórios, mostra o tamanho do problema que enfrentamos.
Alguém comentou que a esquerda se submete a leis eleitorais que ninguém mais cumpre, o que torna as disputas desiguais. Além disso, há a questão da liberação de verbas pré-eleitorais, que a Justiça não consegue obrigar o Legislativo a informar com clareza sobre origem e destino. São bilhões e bilhões.
A Procuradoria-Geral da República (PGR), apesar de sua omissão em momento tão crítico até agora, parece estar se preparando para denunciar o ex-presidente em série, mantendo sua condição de inelegível e aprofundando a crise da extrema-direita, que fica definitivamente sem candidato para 2026. O centro, como já dissemos várias vezes, também não tem candidato; Tarcísio, que seria o nome mais provável, deve seguir como candidato ao governo de São Paulo e esperar 2030, se for sensato. O que, aliás, parece não ser o caso.
OBS.: Não deixe de comentar e curtir os posts, se for o caso.