
O BC errou ou acertou ontem?
Observe no gráfico acima que o centro da meta tem caído (subiu 0,25% em 2024), e desde 2023 convivemos com uma inflação próxima de 4,7% ao ano.
Por que, então, o Banco Central aumentou tanto os juros ontem e prometeu repetir a dose nos dois próximos encontros?
Tenho sido um crítico feroz da política suicida do nosso Banco Central. Nos últimos dois anos, assistimos ao bolsonarista Campos Neto mudar seu discurso de um problema inventado para outro, até conseguir justificar furiosos aumentos na taxa de juros e o preço absurdo do dólar nos dias finais de seu mandato.
A resposta é simples: convergiram algumas posições e alguns fatos externos que exigiam uma resposta antes que se tornassem um problema real.
Estamos falando de um câmbio a R$ 6, com apetite para subir ainda mais.
De tudo que vem sendo discutido, incluindo a ata do Copom divulgada ontem, que dá ênfase total à inflação (a meu ver causada, em grande parte, pelo dólar atualmente), a singela menção ao cenário externo quase passa despercebida. É como se quisessem disfarçar, sem deixar de citar, o maior e mais perigoso desafio dos próximos meses — talvez anos.
E esse desafio atende pelo nome de Trump e suas ameaças cada vez mais próximas de se concretizarem: aumentos de tarifas nas relações comerciais dos EUA com o resto do mundo.
O mecanismo de valorização do dólar nesse cenário — combinado ao aumento de juros por lá, algo que Trump também menciona abertamente — desenha um quadro de desvalorização generalizada das demais moedas, sobretudo nos países emergentes e na China, seu principal alvo inicial nessa anunciada guerra comercial.
Ao Brasil, restou agir preventivamente. O câmbio já está descontrolado na rotina nacional de especulação, misturando cenários distintos, entre invenções, boicotes e uma dose de preocupações fiscais exageradas.
Sim, era necessário antecipar a crise cambial que está programada para acontecer nas próximas semanas, cuja origem está em fatores externos sobre os quais nossa capacidade de reação e contenção é bastante limitada.
Dessa vez, nosso Banco Central acertou. Deu uma paulada no câmbio, mirando a inflação, e pode ter nos preparado adequadamente para a crise cambial nos países emergentes que está por vir.
Claro, o tamanho da encrenca será conhecido nas próximas semanas. Porém, é possível prever uma grande confusão e uma desvalorização generalizada das moedas nos países emergentes, motivadas pelas tarifas e pelo protecionismo interno que Trump tanto avisa e reavisa.
Em breve, saberemos se estamos, de fato, preparados. Por enquanto, acredito que sim.
Para finalizar, uma última entrevista de Trump : ” Tarifa é a palavra mais bonita de todas. Tarifas são lindas. Tarifas nos ajudarão a pagar a dívida. Tarifas contra China, México, Canadá. Tarifas de 20%, 30%, 50%, 100%. Tarifas nos tornarão ricos. Tarifas salvarão dezenas de milhares de empregos.”








