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Blog do Franco

  • Chamada à união.

    janeiro 22nd, 2025

    Uma consequência do entusiasmo extremista — ou mesmo nazista — verificado durante a diplomação de Trump deveria, e parece ser o caso, levar a maior união entre os democratas ao redor do mundo.

    No Brasil, durante a campanha anterior e até os dias atuais, o espantalho do bolsonarismo foi frequentemente usado para relembrar às pessoas e seus representantes o significado das políticas e dos projetos desse agrupamento. Porém, aos poucos, com a ajuda de certos setores da imprensa, a lembrança do desastre bolsonarista está sendo apagada. O espantalho perde força, o judiciário demora nas decisões. A normalização e até a valorização de decisões econômicas que empobrecem países, como o exemplo da Argentina, são exibidas diariamente como modelos de “sucesso”, mesmo diante do crescente desespero do povo vizinho. Isso, em vez de servir como um alerta, tem se tornado um modelo a ser copiado.

    Pois bem, deixando de lado o êxtase dos bolsonaristas, a realidade é que a confusão gerada pelas medidas anunciadas por Trump serve apenas para agradar a um público interno tão irracional quanto as próprias decisões anunciadas. Isso, no entanto, tem um alcance muito limitado. Abandonar a questão ambiental e as metas futuras de preservação e cidadania não passará despercebido. Pelo contrário, unirá povos e governos preocupados com esses temas, fortalecendo ainda mais as discussões globais e as ameaças econômicas associadas a essas mudanças.

    O atual mandatário insiste que “não precisa de ninguém”, mas nem ele acredita nisso. A retórica segue enquanto negociações acontecem por baixo dos panos, porque é assim que essas administrações se sustentam: baseadas na mentira e no engano.

    Pode enganar por algum tempo, mas esse limite será alcançado. Quando isso ocorrer, veremos a oportunidade de unir aqueles que hoje vivem em cima do muro, equilibrando posições conflitantes. Esse equilíbrio tem validade apenas até um certo ponto. Os excessos atuais, porém, podem forçar muitos a uma posição mais definida no futuro.

    No Brasil, a tão anunciada polarização também pode ser reconfigurada. Isolar os antidemocratas, os fascistas e os nazistas, embora desafiador, é um trabalho possível e necessário. As escolhas claras entre democracia e autoritarismo beneficiam aqueles que defendem as melhores pautas.

    A transição do discurso fascista para o abertamente nazista tem um peso definitivo. E isso abre caminho para uma reação igualmente forte e proporcional.

    Essa é a esperança que carrego.

  • O império contra-ataca?

    janeiro 22nd, 2025

    Ainda não vimos a Estrela da Morte, então seguimos analisando a economia.

    Na ilustração publicada no Post, podemos observar que China, Canadá e México são os principais exportadores para os EUA. Ainda não conhecemos o superávit comercial exato, mas fica evidente por que esses países estão no centro das ameaças de tarifas de 25%.

    No caso da China, falaram em tarifas de 10%, pois a situação é mais delicada. Parece haver um interesse maior em aproveitar oportunidades para reverter déficits do que em fazer ameaças diretas. Isso se justifica, entre outros fatores, pela interdependência comercial. Por exemplo, a China é um dos principais compradores de produtos primários do Brasil, que são concorrentes diretos de bens produzidos pelos EUA. Sim, há uma competição econômica direta entre Brasil e EUA no setor agroindustrial, e o Brasil leva vantagem em grande parte graças à sua forte relação comercial com a China. O que os EUA aparentam pretender corrigir, ou tentar.

    Até aqui, não vemos grandes problemas nos campos onde nossas economias colidem, exceto por um aspecto delicado: a proposta dos BRICS de abandonar o dólar como moeda de referência. Essa é uma mudança que o império definitivamente não deseja — e lutará para impedir. Claro, estamos falando de um processo que leva tempo, mas é importante perceber que o movimento está em andamento.

    O que se vê no governo Trump parece ser uma condução sem direção clara. Houve expectativa de que ele, em um segundo mandato, poderia entender melhor os mecanismos do poder e aprender a usá-los com mais eficiência. No entanto, o cenário atual é de desordem, com uma liderança incoerente e objetivos pouco definidos.

    Até agora, as principais ações recaíram sobre perseguições a imigrantes e retrocessos ambientais. Quanto às prometidas tarifas, caso sejam implementadas, poderão gerar aumento na inflação interna dos EUA. E há indícios de que até mesmo a Europa poderá reagir às suas decisões econômicas erráticas. Contudo, vale observar que, até o momento, muito se prometeu e pouco se concretizou.

    Permita-me uma reflexão: o fracasso econômico dos EUA sob a liderança de Trump não seria bom para o mundo. Seria mais saudável que ele encontrasse um caminho para impulsionar a economia americana, mesmo que com base em gastos militares e incentivos à indústria bélica. O sucesso na reindustrialização de seu país, ainda que improvável, poderia trazer estabilidade.

    O perigo está no que pode vir daqui a dois anos, quando um líder de 80 anos, enfrentando sucessivos fracassos, possa recorrer a medidas extremas. Melhor nem antecipar cenários sombrios, mas seguir atentos para entender o que o futuro reserva.

    Um império, afinal, é coisa séria. Sua sobrevivência depende de sua capacidade de servir ao seu povo. Que assim seja, com o mundo em paz.

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  • Agora falando sério.

    janeiro 22nd, 2025

    As 25 prioridades de Haddad para o Brasil em 2025 ( copiado do site Fórum ) .

    Confira a lista:

    1. Fortalecer o arcabouço fiscal, para assegurar a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), diminuir o desemprego e manter a inflação baixa e estabilizar a dívida pública;
    2. Iniciar a implantação da reforma tributária sobre o consumo;
    3. Regulamentar a reforma tributária: lei de gestão e administração do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), fundos e imposto seletivo;
    4. Reforma sobre a renda com isenção para quem ganha até R$ 5 mil e tributação sobre milionários;
    5. Limitação dos supersalários;
    6. Reforma da previdência dos militares;
    7. Projeto de lei da conformidade tributária e aduaneira, com valorização do bom contribuinte e responsabilização do devedor contumaz;
    8. Nova Lei de Falências;
    9. Fortalecimento da proteção a investidores no mercado de capitais;
    10. Consolidação legal das infraestruturas do mercado financeiro;
    11. Resolução bancária;
    12. Mercado de crédito: execução extrajudicial, consignado do E-social, uso de pagamentos eletrônicos como garantia para empresas e ampliação de garantias em operações de crédito (open asset)
    13. Regulamentação econômica das big techs;
    14. Modernização do marco legal de preços de medicamentos;
    15. Pé-de-Meia: permissão ao aluno investir em poupança ou títulos do Tesouro;
    16. Modernização do regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos e das parcerias público-privadas;
    17. Nova emissão de títulos sustentáveis para trazer recursos do fundo clima;
    18. Avanço na implementação do mercado de carbono, com governança e decreto regulamentador;
    19. Novos leilões do Ecoinvest;
    20. Compra pública com conteúdo nacional programa de desafios tecnológicos para a transformação ecológica;
    21. Estruturação do Fundo Internacional de Florestas;
    22. Conclusão da taxonomia sustentável brasileira;
    23. Política de atração de datacenter e marco legal da inteligência artificial;
    24. Plano Safra e Renovagro: aprimoramento dos critérios de sustentabilidade;
    25. Concluir o mapa e investimentos sustentáveis na BIP (Plataforma de Investimentos para a transformação Ecológica no Brasil).
  • O gesto definitivo.

    janeiro 21st, 2025

    Depois do dia inaugural de ontem, confesso que não pretendo entrar no jogo de analisar cada iniciativa do governo Trump. É aquela estratégia de caos planejado: chocam, assustam, lançam iniciativas agressivas – e, na maioria das vezes, ineficazes. Muitas dessas propostas acabam abandonadas pelo caminho, apenas para que ideias ainda piores tomem o lugar. O método é claro: manter a política em um estado constante de choque.

    Isso está longe de ser inofensivo. Os riscos são reais, como já vimos no Brasil durante a pandemia, com 700 mil mortes, muitas delas por negligência e abandono total. A questão não é ignorar o que está acontecendo, mas aprender a separar o joio do trigo: identificar as questões verdadeiramente relevantes e não se deixar afundar no lixo político que eles despejam diariamente.

    Por enquanto, os imigrantes parecem ser as primeiras e maiores vítimas. Medidas como tarifas contra o México e o Canadá estão sendo discutidas – embora ainda não saibamos quando, nem em que medida. A lógica? Atrair de volta aos EUA empresas que atualmente operam nesses países.

    O meio ambiente é outra vítima clara. Os bancos comerciais nos EUA estão encerrando suas linhas de crédito para iniciativas de defesa ambiental e projetos de energia renovável sustentável. É uma grande perda, e o mundo ainda avalia como reagir. Enquanto isso, Trump segue ameaçando os BRICS, prometendo tarifas de até 100% caso continuem reduzindo sua dependência do dólar. Quanto à América Latina, ele fez questão de dizer que os EUA “não precisam de nós para nada”.

    O pano de fundo dessas atitudes, além da evidente arrogância e delírios de grandeza, parece ser o abandono completo do multilateralismo. Ele sonha com um EUA autônomo e soberano, rejeitando tratados e parcerias globais. Saiu da Organização Mundial da Saúde, deixou os tratados de Paris para trás e faz movimentos para consolidar um nacionalismo isolacionista e decadente.

    Entre os momentos mais alarmantes do dia, precisamos destacar a presença de Elon Musk e seu discurso de saudação à posse. Durante o evento, Musk fez um gesto que muitos interpretaram como uma saudação nazista – uma cena transmitida ao vivo e amplamente debatida desde então. Ele não foi o único. Steve Bannon, em outro contexto, também foi visto saudando uma delegação alemã com o mesmo gesto, enquanto Eduardo Bolsonaro estava na sala.

    Esses episódios são mais um capítulo em uma longa história de referências fascistas entre certos grupos de apoio, mas a saudação nazista, realizada em público e transmitida globalmente, eleva o absurdo para outro patamar. Não se trata apenas de chocar; essas ações marcam um perigoso aprofundamento ideológico.

    Trump repetiu sua conhecida retórica sobre a inutilidade de guerras, preferindo sanções econômicas e tarifas como armas de negociação. Porém, assim como tudo em seu governo, esses discursos podem mudar a qualquer momento. A única certeza é que uma superpotência decadente agora está nas mãos de um líder errático e motivado a buscar destruição em nome do poder.

    É como se Nero tivesse assumido o controle, com uma disposição perigosa para colocar fogo em tudo. O mais prudente, no momento, é manter distância e vigilância. Eles vêm com tudo. A única questão é que nem eles sabem para onde.

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  • A Chegada.

    janeiro 18th, 2025

    A expectativa com a nomeação de Trump para mais um mandato segue o padrão extremista : muito barulho.

    Por nada?

    Na verdade alguma coisa ele já fez pressionando Israel por trégua, mesmo que a duração ainda ninguém saiba precisar quanto vai durar. Mas foi um feito e reféns e prisioneiros voltam para suas casas.

    Moedas em todo o mundo caíram em relação ao dólar, movimento preventivo contra propagandas de tarifas ainda por serem anunciadas. Inclusive no Brasil, onde mais 1% na Selic esse mês eu coloco nessa conta das dúvidas em torno das medidas futuras.

    As notícias que chegam é que vem aí um pacotão, estimados em 200 decretos, com a questão dos emigrantes na frente para saciar a sede dos eleitores de cara e ganhar tempo para as outras decisões. Parece que a aprovação do pacote não vai ser o passeio imaginado, sobretudo no senado. Mas acabam aprovando, basta ver o que Milei conseguiu na Argentina. A lógica nesses casos na política é deixar o vitorioso na eleição dar seu rumo e esperar para ver o que vai dar. Mas a semelhança de Trump com Milei termina aí, seus escolhidos para administrar o país se assemelham muito mais com o governo Macri, um apanhado de plutocratas sem a menor noção do que fazer no poder público. Costumam fracassar miseravelmente, e , além de torcida, aqui me socorro de conhecimento prévio em casos semelhantes.

    A retórica trumpista vai sacudir o mundo, mas se vai passar disso o tempo dirá.

    Para nós duas questões: 1- se as tarifas vão obrigar a China a comprar mais dos EUA e diminuir a compra do Brasil. 2- as tarifas diretas vão nos atingir, embora não vejo onde.

    Segunda feira começa.

    Ah, a foto do Post é a oficial do presidente…

    Amanhã vamos analisar os decretos.

  • O fim do massacre?

    janeiro 16th, 2025

    Israel, pressionado pela dupla Biden e Trump – que disputam a autoria da iniciativa –, parece prestes a encerrar o massacre contra os indefesos palestinos na Faixa de Gaza.

    Neste momento, o gabinete de Netanyahu tenta adiar seu inevitável ocaso, possivelmente consciente do impacto que essas decisões terão para seu futuro político. No entanto, a fragilização da Síria apresenta uma nova oportunidade estratégica. A possibilidade de expandir seus planos de dominação territorial pode estar entre os cálculos de Netanyahu e seu grupo. Um cenário favorável a Israel se desenha, ampliando as chances de consolidarem o poder ao avançar sobre novos territórios além dos já controlados.

    Enquanto isso, Biden se despede do cenário político assumindo os créditos pelo fim do conflito, ignorando os 15 meses anteriores em que sua administração foi cúmplice na manutenção das hostilidades. Trump, por outro lado, mantém sua retórica avessa a guerras diretas, optando por conflitos econômicos, sobretudo contra a China. Sua promessa de encerrar a guerra na Ucrânia também reflete uma tentativa de afastar a Rússia da China – embora essa estratégia talvez tenha chegado tarde demais. Paralelamente, o Brasil dá sinais de distanciamento do BRICS, abrindo espaço para Trump colher frutos em áreas inesperadas.

    O mundo já se encontra em um cenário de multipolaridade, mas a disputa por protagonismo nesta nova ordem global segue em pleno curso.

    Mesmo sendo avesso a conflitos armados, Trump parece inclinado a promover uma corrida armamentista como parte de seu plano industrial. Ao pressionar a OTAN por maiores gastos militares, ele busca incentivar a produção bélica como forma de sustentar empregos e impulsionar a reindustrialização dos EUA. A ideia pode ser funcional no curto prazo, mas o acúmulo de armamentos sem um propósito definido de uso é insustentável. Nesse cenário, o mundo caminha para um fechamento político, com o crescimento dos discursos de ódio e o avanço de líderes e políticas de extrema direita.

    No Brasil, a polarização política continua a se aprofundar, com o centro político desaparecendo sem deixar rastros. Paradoxalmente, enxergo no horizonte um possível ressurgimento de um movimento social-democrata, tanto para o país quanto para o PT no período pós-Lula.

    O fim do massacre em Gaza, contudo, é a boa notícia deste início de ano. As atrocidades perpetradas por Israel, marcadas de forma indelével na história, não serão esquecidas. Conforme os detalhes sobre esses crimes forem emergindo ao longo das próximas semanas, o impacto sobre a imagem internacional de Israel será profundo. Comparações com o isolamento enfrentado pela África do Sul durante o apartheid são inevitáveis – embora, neste caso, os agravantes sejam ainda mais evidentes.

  • Sem passaporte.

    janeiro 16th, 2025

    Era previsível a negativa. A exigência de um convite oficial, embora burocrática, acabou por revelar mais uma falsificação grotesca. Foi apresentado um convite obtido em uma página aberta na internet – algo semelhante a um registro geral de intenções de apoio – e não uma autorização formal para comparecer ao evento da plutocracia mundial.

    Agora, com a orientação da PGR para não devolver o passaporte do ex-presidente – sob o argumento de que não há ali nenhum “interesse público” que justifique tal medida –, o caso segue para decisão do ministro Alexandre de Moraes, que deve acompanhar essa recomendação. Não há razões válidas para liberar o documento, já que os motivos que levaram à apreensão permanecem legítimos. Além disso, o relatório da PGR previsto para o fim de janeiro ou início de fevereiro reforça a necessidade de vigilância sobre Bolsonaro, figura que reiteradamente afirmou que jamais aceitaria uma condenação e prisão.

    Embora eu não acredite que este seja um momento de fuga, é fato que Bolsonaro tem meios para sair do país quando quiser. Contudo, parece-lhe mais vantajoso buscar uma saída que imponha ares espetaculares, como um pedido de asilo nos Estados Unidos, junto ao novo presidente, do que fugir discretamente na calada da noite.

    De uma forma ou de outra, a resposta da justiça é proporcional aos riscos que essa figura representa. Estamos avançando para virar esta página, embora ainda estejamos longe de nos livrar do impacto da extrema direita, que continua poderosa graças ao uso estratégico e moderno de redes de propagação de mentiras.

    Por outro lado, apesar da capacidade de disseminação, a direita parece cada vez menos apta a apresentar um oponente político viável. A disputa principal agora se desloca para o Congresso Nacional, onde os embates na Câmara e no Senado prometem ser ainda mais acirrados.

    A esquerda, por sua vez, está começando a melhorar sua atuação no campo digital, mas corre o sério risco de cair no mesmo ridículo em que a direita se especializou. Esses são os ossos do ofício no ambiente polarizado e dinâmico das redes. A longo prazo, podemos vislumbrar a possibilidade de um debate político mais saudável e construtivo, uma vez que a paridade de armas seja alcançada, mas isso exige tempo e maturidade no uso dessas ferramentas.

    Mas essa já é uma outra conversa.

  • O COPOM vem aí.

    janeiro 15th, 2025

    Nos próximos dias 28 e 29 de janeiro, inauguramos a nova temporada de reuniões do Copom, agora sob nova direção.

    Nova? Veremos.

    O que sabemos é que a probabilidade de subirem os juros em pelo menos mais 1% é enorme – e isso, no mínimo. Apesar de todos os pesares, é fato que, diante da posse de Trump no dia 20 deste mês e das medidas radicais que ele promete anunciar, somado à posição de fragilidade em que o BC anterior nos deixou, não há como evitar esse aumento agora.

    Para o futuro, a história será diferente. Os dados iniciais sobre o desempenho do setor de serviços em novembro mostram uma queda de 0,9% na atividade. Esse recuo reflete o efeito da alta dos juros e a estagnação dos salários, frente à alta de preços dos alimentos. As pessoas sentem no bolso e reduzem seus gastos. Nem mesmo a euforia do fim do ano consegue reverter esse quadro. É verdade que as praias estão lotadas, e os brasileiros saíram de férias mais confiantes do que em anos anteriores, com razões concretas para isso. O esforço em manter o ímpeto diante de desafios forjados é grande, mas é algo que já conhecemos bem.

    O problema fiscal não está nos gastos, mas nos juros. O arcabouço fiscal, aprovado em 2023, está sendo rigorosamente cumprido – diferente do que muitas previsões apontavam. Mesmo diante dos fatos, o discurso muda, mas a pressão sobre as despesas fiscais continua. O real problema, porém, é a taxa altíssima de juros, não os investimentos públicos ou as estatais, que apresentaram lucros bilionários. Fechamos 2024 com deficit primário de 0,1% do PIB e déficit bruto de 8% do PIB! Tudo praticamente na conta dos uros.

    O ano começou estranho também na questão do Pix. A portaria que provocou tanto alvoroço deveria ser cancelada imediatamente. Retomar essa discussão apenas quando aprovada a prometida isenção de impostos para movimentações de até 5 mil reais faria muito mais sentido e evitaria o desgaste atual.

    O novo ministro das Comunicações surge com um discurso correto, mas o problema nunca esteve no diagnóstico, e sim na forma de agir. Comparações com o México, por exemplo, onde a atual presidente responde às provocações de Trump com ironia e sarcasmo – como a sugestão de renomear os EUA para “México das Américas” – mostram que, nesses tempos, o deboche parece ser eficaz. No entanto, é importante encontrar um equilíbrio. Nem ser sisudo e rígido, nem cair no ridículo. É nisso que Lula se destaca, com seu equilíbrio único. Durante o tempo em que esteve afastado, o Brasil acabou enfrentando uma onda de negatividade que agora começa a se dissipar.

    Boa sorte ao novo ministro. Há boas notícias para nos manter acreditando. O BC pode ceder agora de início, mas esperamos que o trabalho vá além de apenas aumentar juros.

  • Sonegação e informalidade explicam a confusão com fiscalização do PIX.

    janeiro 14th, 2025

    Devemos partir do princípio de que o uso do Pix vinha substituindo o dinheiro físico. O sistema cumpria a mesma função de forma simples e prática, com a vantagem de eliminar a preocupação com a falta de troco.

    Nesse contexto, o Pix permitia que pequenos recebimentos não declarados continuassem fora do alcance da fiscalização. Assim, transações informais seguiam acontecendo sem chamar muita atenção. Agora, com as novas regras, embora se diga que o sigilo das operações será mantido, o simples fato de saber que há monitoramento sobre a circulação financeira já despertou preocupação e resistência entre os usuários.

    O problema não está apenas na desinformação que gerou pânico, mas também no fato de que um vasto universo de transações informais prefere, por razões variadas, continuar operando fora da formalidade. A realidade é que, para muitos, o dinheiro físico volta a ser uma alternativa mais segura, mesmo com suas limitações.

    Seria mais produtivo agilizar a discussão sobre a prometida reforma tributária sobre a renda, prevista para 2025, estabelecendo de forma clara que ganhos mensais de até 5 mil reais ficariam isentos de preocupação. Consertar o impacto gerado pela mudança no Pix está se mostrando cada vez mais difícil, porque as pessoas, de fato, perceberam a intenção subjacente à medida da Receita Federal, e isso gerou descontentamento.

    A formalização por meio do MEI segue sendo uma questão crucial, alcançando quase todos os pequenos negócios. Nesse sentido, estímulos e facilidades para adesão precisam ser ampliados, tornando a formalização mais atrativa e vantajosa para os microempreendedores.

    Quanto às pessoas físicas e à tributação sobre os pequenos rendimentos, apenas uma mudança legislativa parece capaz de resolver a situação de maneira efetiva. Até lá, o dinheiro físico provavelmente voltará a ser uma alternativa viável para movimentações menores, especialmente entre os setores mais informais da economia.

    No fim, trata-se de um desgaste desnecessário, que poderia ter sido evitado com mais diálogo, clareza e sensibilidade na implementação das mudanças.

  • O convite.

    janeiro 14th, 2025

    Esperei alguns dias para entender melhor essa história do convite de Trump para Bolsonaro comparecer à sua diplomação como presidente dos Estados Unidos.

    O pedido de liberação do passaporte ao STF foi acompanhado de um suposto e-mail enviado para o filho Eduardo, que seria o tal “convite”. No entanto, Alexandre de Moraes rejeitou o documento, argumentando que ele não apresentava procedência oficial, não continha informações básicas como data e horário, e, portanto, não poderia ser considerado um convite legítimo. Ou seja, não era nada além de uma tentativa vazia de fundamentar o pedido.

    O prazo para apresentar um convite oficial foi de 72 horas, contadas a partir do sábado, mas tanto Bolsonaro quanto Eduardo já esclareceram que o “convite” é apenas o e-mail apresentado inicialmente e que não há outro documento, nem haverá. Alegaram que estão “esgotados”.

    Vale lembrar que os presidentes dos Estados Unidos não costumam receber delegações de outros líderes internacionais em suas cerimônias de diplomação. Essas festas são eventos privados, financiados por bilionários e plutocratas sem qualquer constrangimento em exibir esse privilégio. Isso, por si só, já reforça a ideia de que o suposto convite de Trump soa como mais uma peça de ficção.

    Confesso que inicialmente pensei que o advogado de Bolsonaro e sua equipe estivessem blefando, que fosse algum tipo de provocação a Moraes para, no último momento, surgirem com um convite verdadeiro e criarem um espetáculo habitual. Mas não, o pedido foi mesmo ridículo e simplório. E, sinceramente, não parece tratar-se de uma tentativa de fuga. Se Bolsonaro quisesse sair do país, poderia fazê-lo por terra rumo à Argentina, ou em um jatinho particular, sem grandes obstáculos.

    Tudo isso parece ser mais um capítulo da sequência interminável de confusões, mentiras, pegadinhas e falsidades que compõem o “pacote completo” da extrema-direita bolsonarista. O que eles ganham com essas atitudes é um mistério, mas o fato é que o nome de Bolsonaro continua reverberando no imaginário de seus apoiadores, mesmo em episódios tão constrangedores.

    A tendência é que Moraes negue o pedido de viagem e Bolsonaro permaneça no Brasil, acompanhando a festa plutocrata dos EUA pela televisão. Janeiro já chegou à sua metade e, em breve, a justiça deve começar a traçar o futuro do ex-presidente — um destino bem diferente de festas ou holofotes.

    Para piorar, a imprensa internacional, confiando na palavra de Bolsonaro, repercutiu o suposto convite. Mas Trump, até agora, não demonstrou qualquer movimento ou declaração que sustentasse essa versão. O episódio parece caminhar para um desfecho vexatório e melancólico.

    Assim, enquanto a pompa e os excessos das cerimônias norte-americanas ilustram o que os plutocratas representam, mais uma mentira e presepada servem como um reflexo fiel de quem foi o ex-presidente brasileiro.

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