
A nota do governo brasileiro, assinada pelo presidente Lula, condenando o ataque à Venezuela seguido do sequestro do presidente Maduro, faz menção ao histórico de intervenções dos EUA na América Latina, situando a atual agressão no ponto exato. O que nem é negado pelo reincidente agressor do Norte, que assume a Doutrina Monroe de 1822 como inspiração, chama a América Latina de quintal e nos ameaça a todos.
Talvez siderados pelo feito de capturar Maduro em instantes, coisa ainda por entendermos como pôde acontecer.
Mas a sequência dos fatos e as intenções expressas na entrevista afrontosa e megalomaníaca de Trump e seus principais parceiros após o sequestro, quando deixou de lado qualquer comezinha justificativa e assumiu que agora manda na Venezuela e no seu petróleo, mostra que o feito deixou aquela gente que normalmente não raciocina direito em estado lastimável de ilusões.
Porque não se toma um país e suas riquezas sequestrando o presidente.
Certamente não a Venezuela.
O pronto restabelecimento da cadeia de comando interno e a posse da vice-presidente, que exigiu a volta do presidente Maduro ao país, deixa claro que o ataque nem de longe intimidou as lideranças na Venezuela, certamente humilhadas pelo sequestro, mas reagindo para não deixar dúvidas ou vácuos perigosos de poder.
Se a intenção daqui em diante é promover uma guerra civil na Venezuela, estimular um confronto sangrento entre chavistas e oposição, o tempo dirá. Mas, no momento, a liderança do país segue nas mesmas mãos e direção em que estava.
As reações dos líderes no mundo mostram, na sua maioria, interesses paroquiais internos e não visão do todo; mais uma vez, a mediocridade dos tempos atuais nessa safra de presidentes e primeiros-ministros está confirmada.
Aqui no Brasil, o bolsonarismo e seus governadores comemoram o sequestro. Ratinhos, Tarcísio, Zemas e Caiados deixam a quem quiser ver de que lado estão no concerto sobre democracia e direitos, inclusive humanos. Como sujeitos de uma democracia, não valem o sal que comem.
Mas uma coisa aconteceu, e se chama PSDB. Porque Aécio Neves e o governador do RS, Eduardo Leite, condenaram a ação ilegal e se colocaram fora do quadro bolsonarista.
Por quê?
Porque viram uma oportunidade de distanciar-se do fascismo que andavam acalentando e se colocam na frente democrática necessária para o futuro da disputa eleitoral cada vez mais decisiva de 2026.
Daqui pra frente, o bolsonarismo, que precisava se distanciar do extremismo para tentar ganhar a eleição, volta para seu berço natural e vai para a disputa apostando na radicalização. Para perder, bem entendido. Se tinha poucas chances com discurso moderado, passa a ter menos ainda com discurso de raiva e ódio. E a reação do PSDB mostra que, ao abraçar a bandeira dos direitos e da democracia, fazem uma aposta em direção ao futuro, enxergam uma oportunidade de sair do pântano fascista onde estavam e a possibilidade de recuperar o terreno perdido dos liberais brasileiros para os radicais da direita.
É uma mudança importante no discurso que pode ajudar a derrotar o fascismo no Brasil, se os liberais decidirem sair do barco dos extremistas.
Definitivamente.
Observe que dividi o espaço do post entre o ataque covarde dos EUA em três pontos:
1 – Os EUA não têm, até o momento, nenhum controle da Venezuela e nenhuma expectativa de obtê-lo no curto ou médio prazo. Só uma guerra civil poderia derrubar o governo chavista. O que sugere que Trump pode ter dado um passo maior que as pernas, e o velho truque de iniciar conflitos para alavancar popularidade e unir o país pode provocar efeito contrário desta vez e acordar a oposição interna contra ele.
2 – O bolsonarismo retomará o discurso de ódio e tentará atrair novamente os EUA para influenciar, com ameaças, a eleição de 2026. A ver como isso segue, porque Trump não é confiável, nem para eles.
3 – Os liberais brasileiros ensaiam sair do bloco extremista para tentar ressuscitar eleitoralmente. E até onde estão dispostos a chegar? Até a apoiar a reeleição de Lula?
Existem implicações e indícios de um rearranjo de interesses entre as grandes potências mundiais — EUA, China e Rússia — e esferas de influência que merecem reflexão. Mais à frente faremos.
Seguimos de olho na Venezuela e no Brasil. As próximas horas são importantes, mas claramente estamos no começo de mudanças importantes de maturação lenta.
Quanto a nós, também ameaçados, como toda a América Latina e o Caribe, temos na reeleição do presidente Lula o antídoto contra o fascismo assanhado que se anima. Mais uma vez, o velho Lula, com sua experiência, pode nos conduzir nesse nevoeiro.
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Uma resposta para “Sequestrar um presidente não é governar um país.”
Que Deus ilumine Lula em suas sempre sábias decisões.
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