Interesses distintos, por enquanto?

Claramente uma cisão aconteceu entre a Câmara dos Deputados e o governo, ainda cedo para saber a duraçao..

O envio do projeto de segurança sobre facções, iniciativa do governo, foi recebido com forte reação, a ponto de o presidente da Casa, Hugo Motta, nomear relator um sujeito desqualificado, mas alinhado com interesses de Tarcísio e, de maneira geral, cuidando de afastar a intromissão do governo na pauta cara aos conservadores: a segurança pública.

De lado a lado estão mantidas, até o momento, rispidez e troca de acusações. O líder do governo, Lindbergh, admite o desconforto, e Hugo Motta, por sua vez, insiste em cobrar explicações públicas do governo por manter veto à proposta da Câmara aprovada.

Na sexta versão, depois de muitos vetos a pontos inaceitáveis e uma conclusão insatisfatória.

Poderia ser muito pior, não fosse a inaptidão do relator “derretido”, Derrite, que foi testado e desaprovado para a tarefa. Conseguiu chegar a cabo com um projeto que o Senado já avisou que não segue como está.

Mas o importante dos fatos é entender a motivação, a disputa da pauta e seus desdobramentos.

Me parece claro que Congresso e governo iniciam voos distintos com relação a 2026. O ideal seria que isso acontecesse mais adiante, mas a questão do nome ainda por definir, após a prisão de Bolsonaro, para ser o candidato da oposição na disputa presidencial, provocou disputas entre os grupos da direita, que se atropelam para ver quem consegue a vaga.

Naturalmente, desabou na Câmara mais do que no Senado, e obrigou que máscaras caíssem antes da hora.

Seria melhor se permanecessem nas caras, até porque ficarmos divididos com a Câmara ainda a um ano da eleição não é bom. Por isso imagino que mais à frente teremos espaço para retornar ao diálogo, que interesse a todos.

Como estamos nessa etapa de definições de candidaturas e cursos pré-eleitorais, já teríamos por aí algum estresse; somado à indefinição do nome da direita e à prisão de Bolsonaro, ferveu antes da hora, e interessa acalmar os ânimos para todos definirem posições.

O fato de o governo manter alta a aprovação e o favoritismo eleitoral obriga a classe política à moderação e a manter pontes abertas.

O oposto no bolsonarismo, com Tarcísio e os filhos brigando pela herança a céu aberto.

Kassab deu declaração afirmando estimar em 45% a votação de qualquer nome da direita no segundo turno. Observe que ele está falando que Lula ganha com 55%. E pode ser um sinal de que desistem, por enquanto, da presidência e vão focar no Legislativo? Ciro Nogueira foi mais explícito e afirmou exatamente isso: “fazer bancada, porque desunidos como estamos vamos perder”.

Acredito ser esse o cenário.

E sobre a nomeação de Messias para o Supremo abrir mais uma frente de batalha, dessa vez com o Senado, aí me parece mais uma disputa de espaço entre Legislativo e Executivo do que entre Alcolumbre e Lula. A escolha de ministro do STF é exclusiva do presidente da República, mas o Senado, com essa postura mais agressiva de Alcolumbre, ensaia mais um avanço das prerrogativas sobre o presidencialismo, com desdobramentos futuros cada vez mais pendentes para o enrijecimento do regime presidencialista no Brasil. Assunto mais para o futuro, embora cada vez mais presente. Importa agora esperar alguma retaliação do Senado, marcando posição — e não deve passar disso — diferente da expectativa com a Câmara, onde a cisão foi mais profunda e imagino que este ano não se conserta.

Resta esperar o recesso de Natal e, no próximo ano, ver como a coisa retorna, provavelmente com diálogo restabelecido.

A popularidade do presidente e suas chances de reeleição seguem como o lastro do governo para manter o poder nas mãos; sem isso, os lobos o teriam devorado.

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