Aos costumes.

A pauta da segurança pública entrou na ordem do dia, da pior maneira possível, como convém a esse tipo de desafio: uma chacina no Rio de Janeiro sem nenhuma explicação até agora.

Acionou o Congresso ávido por vitrines de véspera eleitoral, com deputados e senadores ansiosos para mostrar serviço e garantir reeleição.

Por baixo dos panos, é preciso tentar identificar a movimentação dos personagens, de todas as matizes, porque todos dependem da escolha das urnas para seguirem participando do jogo.

E uma das mais sofisticadas manobras do poder consiste em não somente vencer o adversário, mas escolher contra qual adversário disputar, para vencer.

O que acontece com mais frequência do que se imagina.

E nem vamos lá atrás, na disputa PT/PSDB — vamos focar em 2026.

Há poucas semanas, o Centrão se assanhava com nomes não somente para disputar 2026, mas imaginavam, para além de seus parcos apoios, incluir o bolsonarismo sem Bolsonaro. A moeda de troca seria a promessa de anistia para o capo, vencidas as eleições presidenciais.

Zema, Caiado, Ratinho, Tarcísio — todos tornaram público o compromisso de abrir caminho entre o fascismo sem chapa e moribundo.

Mas a chacina reacendeu o grupo extremista, com o vigor renovado da pauta escolhida antecipadamente para fazer frente ao governo federal, uma vez que, na economia, não encontram discurso convincente, nem mesmo um descontrole fiscal fictício que tentam emplacar. Porque, apesar dos juros altos, também no déficit fiscal o Brasil tem trajetória sustentável, considerando o horizonte de início de queda das taxas Selic a partir de março do próximo ano.

Se não têm economia e nem corrupção do governo para alavancar discursos da oposição, o grave problema da segurança pública seria — e será — o foco da oposição para a disputa de 2026.

Temos insistido nesse ponto.

Mas um elemento que às vezes esquecemos é o quanto isso interessa ao governo Lula — não somente disputar a pauta, como está fazendo, mas dividir a cena com a extrema direita, alienando o centro da discussão e da vitrine — e como isso interessa aos dois principais antagonistas.

Porque, na verdade, quem oferece maiores e imprevisíveis riscos eleitorais não é a extrema direita, que agora tem no nome de Flávio Bolsonaro um candidato para apresentar. O risco para Lula sempre foi o centro — com Ratinho, Leite, um nome não testado e que arrastaria o antipetismo, além de imprevisíveis outros votos do centro político.

Já a extrema direita tem uma característica essencial para ser escolhida como adversário: perde.

Os movimentos da Câmara e do Senado, com CPIs e votação de PECs, teses de fazer das facções criminosas terroristas, para agradar a direita trumpista e alinhar discursos — tudo entra em disputa com o governo, talvez de forma inédita, pronto para enfrentar o debate sobre o tema segurança e mostrando disposição para atuar com decisões diferentes e discursos renovados, reconhecendo a urgência do debate e seu momento de ser enfrentado com coragem.

A chacina em si não está mais em discussão; fala-se em cassar o governador do Rio por abuso de poder econômico na eleição — veremos se acontece. E o STF abre investigação sobre ações criminosas com elos na política, empreendidas no estado, o que é uma necessidade, mas me deixou a impressão de, assim fazendo, desviar o foco das investigações sobre a chacina e seus responsáveis.

A ver.

Tudo leva a crer que vão colocar tudo na conta do governador Castro, e cada um vai seguir seus objetivos sem entrar no mérito dos crimes cometidos no Rio de Janeiro.

Porque tem, e reconheça-se, aprovação da maioria das pessoas. Que, também em sua maioria, condena o excesso de violência, mas quer uma solução para o descalabro da violência e da insegurança.

A resposta da política é, então, usar a realidade da exigência popular para si — cada um fazendo uso da maneira que pode e interessa.

Uns, na repetição de mais rigor; outros, com discurso renovado, intercalando investigação, alvos de inteligência policial e estrangulamento econômico das facções. Mas todos envolvidos na pauta.

Porque ela está aí para ser disputada.

O assunto é delicado, o momento é decisivo para as escolhas em 2026 e o pêndulo das possibilidades está oscilando — e todo cuidado é pouco.

Foi, sim, um ganho para a extrema direita, que volta para o jogo. Quanto ao governo Lula, temos na semana uma pesquisa Quaest para saber a quantas anda. Rumores de estabilidade na aprovação circulam, e vamos aguardar a confirmação na próxima quarta.

O quadro geral não deve mudar, com a disputa aberta entre a direita e o PT, o antipetismo buscando definir seu voto e a porta se fechando definitivamente para o centro.

Cenário de 2018.

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