Apostas no câmbio.

Para situarmos os desafios de uma economia periférica como a nossa, vamos refletir sobre o movimento do câmbio em outubro.

Ficamos sabendo, por esses dias, que durante a discussão para a aprovação da lei que passou a cobrar 10% de imposto sobre lucros e dividendos acima de 50 mil anuais, o que fizeram as empresas estrangeiras? Compraram U$ 13 bilhões de dólares para fazer caixa na hipótese de a lei ser aprovada e enviar o dinheiro para as matrizes lá fora antes da cobrança iniciar. Cobrança que seria a partir de janeiro do próximo ano, mas, como não tem bobo nesse mundo, o governo percebeu o perigo no equilíbrio cambial se volumes expressivos de dólar saíssem rapidamente e incluiu na lei um período de transição para envio desses dividendos e lucros de 2025 até 2028, sem incidência do novo imposto de 10%.

A decisão deve ter acalmado o ímpeto de aproveitar a janela sem impostos e enviar o dinheiro para suas matrizes — o que teremos que aguardar para conferir. Em todo caso, agora estão em dúvida sobre o melhor a fazer, porque, se o real continua sua trajetória de valorizar, quanto mais tempo ficarem com reais no caixa e esperarem o máximo possível para a troca em dólares, mais lucro se obtém. Outra questão é o que fazer com os dólares comprados em outubro, e o correto seria se livrar deles o mais rápido possível, segundo a mesma lógica de que estão se desvalorizando frente ao real.

Aqui e ali, as notícias sugerem que os administradores dessas multinacionais estão em dúvida sobre o que fazer. A alegação de evitar a espera até 2028, sem pagar imposto, correria riscos porque no Brasil a coisa sempre muda.

O argumento é falso e tenta, a meu ver, ocultar uma decisão errada desses administradores: acumularam reservas em moeda estrangeira sem necessidade — no fundo, uma aposta contra o real — e agora estão “micados” e amargando prejuízos.

E fora se o movimento do câmbio temido de fim de ano for invertido, com venda e desova desses U$13 bilhões, e não de compra como costuma ocorrer no fim de ano, exatamente para fechamento de posições e contabilidades das grandes empresas.

Ano passado, o movimento de câmbio foi fora da curva — altíssimos U$ 24,3 bilhões — porque a aposta contra nossa moeda foi pesada e lucrativa, o oposto do que se esperava para este dezembro.

A ver o que acontece.

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