
Uma breve retrospectiva :
“Nos anos 1990, José Guilherme Godinho, o Sivuca, foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro sob o lema “bandido bom é bandido morto”. Três décadas antes, ele havia sido um dos integrantes da Scuderie Le Cocq, grupo de extermínio que deu origem às milícias.
Em 2018, Wilson Witzel, então no PSC, venceu o pleito para o Governo do Rio tendo a segurança pública como prioridade. Ele resumiu seu projeto de enfrentamento ao crime dizendo que as polícias deveriam “mirar na cabecinha e… fogo”. No mesmo ano, Bolsonaro fez sua campanha à Presidência calcada no discurso militarista e passou a utilizar o bordão “CPF cancelado”.
A postura, portanto, não agrada somente ao eleitor fluminense. Em São Paulo, Coronel Ubiratan, que conduziu o Massacre do Carandiru em 1992, tornou-se deputado estadual, tendo como número nas urnas o número de mortos na chacina: 111.”
Antes de ocorrer a chacina no Rio de Janeiro, alguns nomes da direita haviam manifestado seus objetivos e pautas para a disputa eleitoral de 2026: a segurança e o déficit fiscal.
Sobre o déficit fiscal, procurariam atingir o sucesso da política econômica do governo — salários, empregos e inflação — com ataques ao crescente (embora administrável e no radar das decisões orçamentárias corretas) aumento da dívida pública, inteiramente provocada pelos juros, que por sua vez estão altos para segurar o câmbio e a inflação. Uma operação clássica da política econômica: juros altos para combater a inflação. Mas, com o governo Lula — e só com ele —, a recessão não atinge o Brasil por conta de outras iniciativas, como investimentos públicos e privados, obras do PAC, valorização do SUS, da Educação etc., todos os programas sociais que mantêm o emprego e a atividade econômica. Sem deixar de pressionar a inflação, mas mantendo-a sob roteiro previsível e em queda, na direção do topo da meta ainda em 2025, como estamos vendo.
Tudo isso impede a direita de avançar nessa seara, até para evitar comparações com o período anterior, de absoluto descontrole e falta de rumos, com a economia nas mãos de Guedes e Campos Neto — sem falar no ministério bolsonarista, que parecia uma festa de Halloween.
A crescente aprovação do presidente Lula estava deixando a direita sem candidato, com Tarcísio, que a princípio esperava a unção do ex-chefe para disparar sua campanha, me parecendo sem disposição atualmente para seguir arriscando sua suposta liderança e se reeleger em SP. Mesmo na hipótese de receber apoio, não garante mais posição favorável para vencer uma disputa com Lula no próximo ano.
Tudo isso sabemos. E, ao aproveitar a comoção provocada pela chacina e seu escândalo, a direita percebe a polarização crescer no país. O governador Castro, autor do crime, tem sua aprovação crescer ao mesmo tempo que sua desaprovação — ou seja, na direção da polarização —, o que obriga os grupos e partidos de centro a buscarem proximidade. Esvaziam-se as tentativas desse centro e a base do antipetismo reagrupado na extrema direita.
Resumindo: o centro político mais uma vez tende a se esvaziar, e a esquerda vai enfrentar a extrema direita em 2026.
O que se diz é exatamente isso: que a direita já está reposicionando suas campanhas para enfatizar segurança pública e atrair votos nessa direção, buscando minimizar os ganhos sociais e econômicos onde o governo obtém sucesso.
Quando me lembro de candidatos desconhecidos invadindo hospitais durante a epidemia de Covid para falsas denúncias e escândalos somente para atrair atenção — e muitos deles foram eleitos assim —, e que estavam se afastando desse estilo para seguirem suas carreiras políticas, imagino essa turma se alinhando novamente ao recente desastre humano promovido pela chacina e vendo aí mais uma oportunidade de fazer a demagogia vencer.
Não vi ainda pesquisas de opinião sobre os efeitos na aprovação do governo federal no episódio; me parece efeito mínimo, se algum houve. É verdade que, de início, uma onda de críticas começou a ocorrer, seguindo a fala mentirosa do governador do Rio, Castro, quando afirmou ter sido abandonado pelo governo federal, a quem teria pedido ajuda. No que foi prontamente desmentido, as manifestações de apoio ou críticas voltaram a espelhar a atual divisão polarizada — com a diferença de que o bolsonarismo, ou o pós-bolsonarismo, encontrou uma bandeira.
Enquanto os mortos são rapidamente esquecidos, a política assume a direção — e vamos ver o que vem por aí.
Aprovação de novas leis, consórcios oportunistas, CPIs para atrair eleitores.
O combo completo para tudo permanecer no mesmo.
Para a disputa presidencial, não vejo mudanças. Aqui e ali alguns nomes estão sendo reforçados; a opinião pública, ao mesmo tempo que apoia a repressão, mostra que entende não ser a melhor solução, sem antecipar nessa ambiguidade posições definidas.
Exatamente para isso servem as campanhas e o momento do voto: definir posições.
Então, vamos aguardar para saber — sem sustos, sem temores exagerados, lúcidos e acreditando no melhor projeto: inclusivo, humano e de combate à pobreza com distribuição de renda.
Sem esquecer de defender a população dos criminosos e bandidos — inclusive aqueles que mais lucram com a violência e o tráfico: milicianos e chefões que não moram nas favelas.
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