Travessias.

Nada é mais didático – e relevante – neste momento do que fazer uma comparação entre as decisões políticas absolutamente distintas adotadas pelo Brasil e pela Argentina.

Enquanto um promove a inclusão e distribuição dos ônus e bônus, o outro aprofunda ao limite a concentração e marginalização de sua população e instituições.

Um aumenta salários e convoca os demais entes institucionais para o trabalho, o outro assume uma função imperial e acumula todas as decisões.

É verdade que na Argentina estamos na fase das propostas, e chega a ser curioso propor um poder monárquico e aguardar o aceite dos demais poderes. Não é possível imaginar prosperar, não no nível proposto. Mas ainda estamos descobrindo os planos mirabolantes do presidente empossado, e boa parte da população não esperou uma semana para começar a protestar.

Temos observado como as decisões eleitorais estão divididas na maioria dos países. Milei conseguiu uma vitória acima da média, com seus 10% de vantagem no segundo turno. Mesmo assim, não passa de 40% do total dos eleitores, e os números de nulos e abstenções seguem altos e crescentes na maioria dos países. Isso também recomendaria prudência nas decisões, com os governantes cientes de que suas maiorias são muito voláteis e frágeis.

Lula assumiu seu terceiro mandato nessas condições, com menos de 40% dos votos válidos, com pequena diferença do seu adversário. Este, que não reconheceu a derrota, tentou de todas as maneiras reverter o resultado e, no mínimo, envolveu parte das forças armadas em um episódio que ainda não foi totalmente revelado.

O dia 08/01 e sua depredação da praça dos três poderes em Brasília ficam marcados na história da infâmia nacional, em um episódio ainda por se revelar por inteiro.

O contexto no Brasil recomendava prudência, sem falar nas bancadas eleitas no Congresso. E, verdade seja dita, o episódio de Brasília unificou as instituições e isolou o fascismo, ajudando e acelerando a reação democrática que, apesar dos pesares, parece permitir antever um 2024 mais equilibrado, ao menos até a eleição municipal.

Na Argentina, nas próximas semanas, a investida de Milei terá sua acolhida ou repúdio conhecidos. Difícil imaginar que algo muito importante saia dessa fábrica de leis, decretos aleatórios e irresponsáveis. Difícil imaginar o Congresso argentino avalizar a subtração de suas prerrogativas legais, muito menos o judiciário.

Isso nos leva ao dia seguinte.

O arauto da liberdade própria antecipou a saída na hipótese de recusa de seus planos imperiais e convocará um plebiscito para resolver o impasse.

Enquanto isso, seu governo fica parado e arrasta a economia do país para o fundo do poço, onde, é bom frisar, não se encontrava, apesar da inflação de 100% em 2023 contratada no governo derrotado.

Talvez seja parte do plano naufragar espetacularmente. A loucura suicida é parte da psique e condição humana, é bom lembrar. A raiva, o ódio, cegam a razão e nenhuma boa solução pode ser encontrada em situações assim.

Exageros à parte, o significado de tudo é o provável impasse no caminho dos argentinos, que deverão se deparar, mais uma vez, com a necessidade urgente de mudar de rumos.

2024 para eles será difícil.

Para nós, ao menos por parte do governo, paz e amor.

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